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Julio Mesquita
(1891-1927)
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  Uma guerra dentro da outra

O ataque terrorista que destruiu um dos santuários mais venerados pelos muçulmanos xiitas - a Mesquita Dourada, em Samara - e a matança de mais de uma centena de iraquianos sunitas, em represália ao ultraje, tornaram acadêmica a questão de saber se o Iraque está a caminho da guerra civil ou se já chegou a isso. Trata-se de uma filigrana semântica. Desde o início da insurgência contra a ocupação anglo-americana, em 2002, têm sido freqüentes - e crescentes - atrocidades recíprocas entre os sunitas, o grupo etnorreligioso que controlava o país ao tempo de Saddam, embora representasse apenas 20% da população, e a maioria xiita (60% dos iraquianos) amplamente vencedora das eleições de dezembro passado para o que seria o primeiro governo democrático da história iraquiana.

Enquanto os ocupantes fracassam a olhos vistos na tentativa de criar uma força policial iraquiana efetivamente capaz de dar combate aos rebeldes e manter a ordem pública, os xiitas dispõem de bem armadas milícias que respondem apenas aos aiatolás e senhores de guerra aos quais são leais (não raro também se matam mutuamente). Não conseguindo, ainda assim, desestimular os atentados dos insurretos sunitas e estrangeiros contra a sua gente e os seus lugares sagrados, concentram-se em perpetrar represálias que não ficam muito a dever aos ultrajes do inimigo. Recentemente, para citar um exemplo significativo, embora nem de longe tão espetacular como os ataques à bomba, os americanos descobriram que os milicianos xiitas torturavam sistematicamente prisioneiros sunitas em Bagdá.

Desta vez, o que propiciou a escalada de selvageria foi o receio dos radicais sunitas de que, a duras penas e sob intensas pressões americanas, os xiitas acedessem em formar um simulacro de governo de união nacional. Por remota que fosse, essa perspectiva seria sombria para os movimentos aos quais só interessa o desmoronamento final da aventura americana no Iraque. Destruída a belíssima Mesquita Dourada e desencadeado o pogrom contra os sunitas, a primeira coisa que estes fizeram foi romper as negociações com o outro lado para a formação de uma coalizão governamental. (Muçulmanos também, não deram um pio de pesar pela barbaridade em Samara; de seu lado, os xiitas lançaram-se com entusiasmo à depredação de mesquitas da seita rival.)

Embora clérigos e políticos moderados pedissem calma a ambas as facções, o que prevalece é a oratória carbonária de parte a parte, enquanto diplomatas e militares americanos exibem sua confrangedora impotência. O grão-aiatolá Ali Al-Sistani, a maior autoridade religiosa xiita no Iraque, como que dando ordem de fogo aos seus esquadrões da morte, declarou que "se as forças de segurança do governo não nos podem oferecer a necessária proteção, os fiéis se incumbirão disso". O fundamentalista Abdul Azziz Al-Hakim, chefe do principal partido xiita, que deve à derrubada de Saddam ter podido voltar ao seu país depois de anos de exílio no Irã, culpou bizarramente os americanos por Samara: para ele, as pressões sobre os xiitas na arena política é que teriam encorajado o terror sunita.

Por fim - se é que a expressão se aplica -, a Associação de Clérigos Muçulmanos, a mais influente entidade religiosa sunita, responsabilizou "certas autoridades religiosas xiitas" pelos ataques continuados a civis e templos sunitas. Para um comentarista inglês, seria como o papa atacar o arcebispo de Canterbury, a mais alta figura da Igreja Anglicana, pela destruição da Basílica de São Pedro. Nesse cenário de pesadelo de uma guerra dentro da outra - a primeira, contra o invasor ocidental; a segunda, pelo poder no Iraque invadido -, cada passo rumo à normalização do país é neutralizado por outra manifestação do insolúvel conflito etnorreligioso interno. Diante desse novo retrocesso na reconstrução política e institucional iraquiana, fica claro que não há saída - literalmente - para os EUA.

Bem diz o pensador Francis Fukuyama que os EUA "não sabiam o que faziam ao tentar democratizar o Iraque". Ou, nas palavras do ex-diplomata americano Peter Galbraith, "a democracia levou ao poder no Iraque os aliados do Irã, capazes de acender um levante contra as tropas americanas que faria os atuais problemas com a insurgência sunita parecer insignificantes".

   


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