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  Evoluímos, logo mentimos (e muito)

Evolução seleciona características mais vantajosas, e capacidade de enganar ajuda os organismos a sobreviver

Simone Iwasso

Todos mentimos. O tempo todo. Até mesmo sobre a própria mentira. Com essa afirmação nada politicamente correta, o cientista David Livingstone Smith, Ph.D. em filosofia e co-fundador do Instituto de Ciência Cognitiva e Psicologia Evolutiva da Universidade da Nova Inglaterra, associa o ato de mentir, dissimular e ocultar a uma habilidade essencial para a sobrevivência.

A explicação está no livro Por que Mentimos – Os Fundamentos Biológicos e Psicológicos da Mentira (Editora Campus/Elsevier, 216 páginas, R$ 39,90), recém-lançado no Brasil. Nele, o pesquisador analisa os mecanismos cerebrais envolvidos na mentira, relacionando-os à Teoria da Evolução de Darwin. Segundo Smith, a estrutura mental do ser humano foi formada, durante milhões de anos, pela necessidade de enganar. Distintos dos mentirosos conscientes, os mais eficazes mentirosos são aqueles que nem sabem que estão enganando.

Qual o elo entre a evolução e a mentira?

Em grande parte, nossa tendência para enganar é herdada do nosso passado evolutivo. Na verdade, muitos outros organismos também fazem isso. Flores se passam por vespas fêmeas para atrair os machos, cobras não venenosas imitam as venenosas, animais se disfarçam de folhas e galhos. Macacos demonstram formas criativas de dissimulação. A razão por que a mentira é tão comum na natureza é que trata-se de uma vantagem para os organismos que sabem usá-la. Darwin nos ensinou que a evolução seleciona características que são mais vantajosas aos indivíduos. E a capacidade de enganar ajuda os organismos a sobreviver.

Com base nisso, o senhor afirma que o homem desenvolveu mecanismos cerebrais para mentir. Então, todos já nascem mentirosos?

Sim, todos os seres humanos são mentirosos de nascença. Mentir é natural, como respirar, falar e sentir desejo sexual. Mentimos todos os dias para amigos e inimigos, familiares, maridos, mulheres e amantes. Médicos mentem para pacientes, advogados mentem para seus clientes e políticos para os cidadãos. Mas não gostamos de admitir isso. A mentira permeia a vida humana e o convívio social seria impossível se não escondêssemos uns dos outros a verdade. Já imaginou como seria se, em apenas um dia, uma pessoa contasse tudo o que pensa sobre tudo e todos? E o mesmo valesse para todos ao seu redor? Seria insuportável. Mas, claro, não gostamos de admitir que mentimos tanto. Ou seja, mentimos até mesmo sobre a própria mentira.

Mas por que alguns mentem melhor do que outros?

Por ser uma habilidade, algumas pessoas são capazes de mentir melhor do que outras. Mas é importante fazer uma distinção entre a mentira deliberada, consciente, e a inconsciente. A maioria das pessoas não são boas na mentira deliberada. Ficam desastradas, alteram o tom de voz, ficam ruborizadas, transpiram mais. Como qualquer habilidade, isso pode ser melhorado com a prática. Jogadores de pôquer, por exemplo, são mestres nisso. Mas a maioria das pessoas, quando mente, não sabe que está mentindo. A mentira sai da sua boca. E essas são muito mais convincentes.

Quais vantagens a mentira traz?

Mentir ajudou nossos ancestrais a manipular seu grupo social – como as pessoas fazem hoje. A mentira é usada para conseguir algo ou para evitar algo. Bons mentirosos são mais populares e bem-sucedidos. Conseguem mais status social e melhores salários.

O senhor fala do papel do auto-engano? Por que ele é importante?

O auto-engano é mentir para nós mesmos. Como é possível que as pessoas escondam a verdade delas mesmas? Parece um pouco como roubar dinheiro de sua própria carteira. Mas o auto-engano só parece um paradoxo se pensarmos que a mente é uma coisa única, consciente. Freud nos deu um quadro bem diferente da estrutura da mente. Ele afirmou que a mente não é um corpo único, mas dividido, o que abre a possibilidade para que uma parte esconda a verdade das outras. Esse seria o componente psicológico. O segundo componente é biológico. Se o auto-engano é uma característica da espécie humana, a biologia deve estar envolvida. Segundo a evolução, para uma característica se desenvolver, ela deve ser vantajosa.

Como omitir informações de nós mesmos pode ser vantajoso?

Se você não souber que sabe de uma informação, não tem como revelá-la. Em muitos casos, é um mecanismo de defesa do próprio homem para lidar com sua realidade. Quem acredita em suas próprias mentiras é muito mais persuasivo. Mentimos com mais eficiência quando pensamos que estamos dizendo a verdade.

Então o auto-engano seria importante inclusive para o homem manter sua saúde mental?

Há boas evidências de que o auto-engano é necessário para a saúde mental. Diversas pesquisas indicam que pessoas com depressão moderada enganam menos a si mesmas do que aquelas consideradas normais. Pessoas depressivas, por exemplo, também analisam as atitudes dos outros em relação a elas mesmas com mais precisão do que as não depressivas. Segundo essas pesquisas, quando essas pessoas começam a se recuperar, se tornam mais auto-enganadoras. Isso faz sentido. O mundo é cheio de sofrimento. Tudo isso é difícil de suportar. Talvez precisemos mentir para nós mesmos para impedir que fiquemos loucos.

O senhor disse que começamos a mentir com a linguagem falada. Por quê?

Mentir, no sentido de dissimular, surgiu antes da evolução da linguagem. No entanto, a linguagem torna possível mentir com muito mais eficiência. A linguagem nos permite pintar um falso retrato da realidade. Com palavras, damos uma imagem do mundo que não corresponde à realidade, mas expressam o que gostamos de acreditar que seja. E também é fácil mentir com palavras. É fácil dizer “eu te amo” sem querer dizer isso mesmo. Mesmo assim, muitas mentiras são não-verbais. Mentimos pelo jeito de andar, pelo tom de voz, pelos gestos, pelas nossas expressões faciais.

E é possível saber quando alguém está mentindo?

Não há um jeito garantido de saber isso. Os convencionais detectores de mentira não detectam mentiras, detectam sinais de ansiedade. Mas nem todos se sentem ansiosos quando mentem. E nos sentimos ansiosos em uma série de outras situações, por exemplo, sendo acusados injustamente de um crime. Mesmo essas tecnologias de scanner cerebrais usadas hoje são falhas. Os adeptos dessas técnicas acreditam que quando alguém mente, há um sinal específico sendo transmitido no cérebro. Sou muito cético a esse respeito. Primeiro, porque isso parte do pressuposto de que todas as mentiras têm muito em comum para serem detectadas dessa maneira, o que eu não acredito. Há muitos tipos de mentiras. Algumas são omissões, outras concessões. Algumas sobre nós mesmos, outras sobre os outros. Algumas dolorosas e outras prazerosas. Algumas conscientes e outras inconscientes.

É possível parar de mentir?

Só se estiver sofrendo de algum problema neurológico. Todo ser humano que pensa que não mente está se enganando. Mentir não é um comportamento superficial, não é uma coisa feita intencionalmente. É central da natureza humana. Não podemos parar de mentir como não podemos parar de transpirar. A sociedade se desmoronaria sem a mentira.

Estamos em evolução. Desse modo, os mecanismos da mentira também estão?

Sim, estão sendo aprimorados. Se não nos destruirmos e a evolução continuar seguindo seu curso, acredito que os seres humanos se tornarão melhores e melhores em detectar mentiras. Mas, ao mesmo tempo, se tornarão ainda melhores em enganar uns aos outros.

   


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