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Julio Mesquita
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  O mestre de um mundo fantástico

Exposições mostram o traçado muito próprio de Marcello Grassmann, que mistura visões e influências arquivadas na memória

Camila Molina

"Não existe artista que brota do nada." Aos 80 anos, Marcello Grassmann define de forma direta o repertório presente nas gravuras e desenhos que ele vem realizando ao longo de seis décadas de produção. São figuras de um outro mundo, de um universo imaginário que engloba cavaleiros medievais, homens de armadura, mulheres nuas, lanças, seres metade bicho metade gente. "Há uma mistura de visões, interesses, participações, influências que não são ao pé da letra, de imagens que ficam arquivadas na memória e depois vêm consciente ou inconscientemente", conta o artista enquanto acompanhava a montagem da grande mostra de seus desenhos que será inaugurada hoje no Instituto Moreira Salles de São Paulo (IMS). Para citar uma influência, Grassmann diz que na sua infância e adolescência ficou muito impressionado com as ilustrações de Gustave Doré (1832-1883) para o D. Quixote de Cervantes e para a Divina Comédia de Dante. Mas em ensaio escrito para a mostra, o poeta e crítico Ferreira Gullar fala também da influência dos seres da "arte delirante" de Hieronymus Bosch (1450-1516), assimilados e reinventados por Grassmann - foram eles "desfeitos e mudados em linhas, rabiscos, manchas, treva e luz".

Em desenho ou gravura, a temática figurativa e fantástica persiste em toda a sua carreira - e isso nunca foi um problema para ele. "Se você pega toda a obra de Picasso vai ver que há meia dúzia de temas", diz Grassmann. A exposição agora inaugurada no IMS, que reúne 55 desenhos realizados entre a década de 1980 e o ano passado, é uma das merecidas homenagens aos seus 80 anos (completados em setembro) - depois, ela segue para o Rio, Belo Horizonte e Poços de Caldas. Além dela, será também aberta na galeria do IMS no Unibanco Arteplex , no Shopping Frei Caneca, uma mostra com gravuras datadas entre as décadas de 1970 e 1990; e na terça-feira a galeria Gravura Brasileira inaugura exposição com xilogravuras do artista realizadas bem no início de sua carreira, até 1954.

Nascido no interior do Estado de São Paulo, na cidade de São Simão, Grassmann é de família de imigrantes alemães. Mudou-se para a capital paulista em 1932 e quando foi começar sua formação, curiosamente, seu primeiro interesse foi a escultura - por isso entrou na Escola Técnica Getúlio Vargas para estudar fundição, entalhe e mecânica. Do cuidadoso trabalho com a madeira, sem ter consciência ele ia atrás das imagens. "Depois que terminei meu curso, não me tornei um entalhador. Comecei a usar as ferramentas para fazer xilogravuras", conta o artista. Na década de 1940, chamou-lhe a atenção as xilogravuras que Oswaldo Goeldi (1895-1961) fazia para o jornal A Manhã e as obras de Lívio Abramo (1903-1992). "Mas depois de fazer mais de 60 xilogravuras, ela foi se esgotando", continua o artista.

No fim dos anos 40, morando no Rio, Grassmann fez curso de gravura em metal com Carlos Oswald. O Liceu de Artes e Ofícios do Rio tinha todo o equipamento e instrumental para a técnica, o que era raro, e nessa época Grassmann se interessou pela água-forte. "Minha preferência é a gravura em metal, que se aproxima mais do desenho", diz. Segundo ele, a técnica lhe possibilitou a liberdade do desenho - traços e claro-escuro -, o que não era possível com a rudeza da xilogravura.

As imagens, aquelas mesmas recriadas de memórias da infância e da vivência do dia-a-dia, Grassmann foi desde cedo tomando como linguagem. "São variações das mesmas coisas. O que importa é a colocação das figuras", diz. Em certa obra, o interesse pode ser maior pelo cavalo, em outra, pelo cavaleiro, e assim por diante. "Só vendo a pessoa pode acompanhar o processo de trabalho". As cores também dependem da proposta de cada composição. "Acomodo as idéias a um clima colorido, muito pouco colorido", Grassmann ressalta. São sépias, preto-e-branco, o vermelho sanguíneo que vez ou outra aparecem nas obras.

Mas o que importa mesmo é o traçado, muito próprio. "Trata-se de uma reinvenção do desenho", define Gullar, que propôs a mostra no IMS. "Em determinados momentos, o desenho se torna um emaranhado de traços, e desse emaranhado, como do caos, nasce a figura." Não é só de trevas e luz que se fazem as obras, há em alguns casos o caráter erótico. E delas todas, vale chamar a atenção para os olhos dos personagens: "São eles que imprimem realidade - e até estranha humanidade - aos seres fantásticos do mundo grassmanniano".

(SERVIÇO)Instituto Moreira Salles. R. Piauí, 844, 3825-2560. 13 h/19 h (sáb. e dom., até 18 h; fecha 2.ª). Grátis. Até 25/6. Abertura hoje, às 19 h. Unibanco Arteplex. R. Frei Caneca, 569, 3.º piso, 3255-8816. 12 h/24 h. Grátis. Até 27/6

Gravura Brasileira. R. Fradique Coutinho, 953, 3097-0301. 10 h/18 h (sáb., 11 h/15 h; fecha dom.). Grátis. Até 6/5. Abertura 3.ª (18), às 19 h

   


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