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  Chorão e os jovens que vão ao limite

Vocalista do Charlie Brown Jr. estréia como roteirista em O Magnata

Luiz Carlos Merten

Foi a mais estranha de todas as visitas a um set já feitas pelo repórter do Estado. Primeiro, foi preciso passar pelo sofisticado sistema de segurança de um condomínio de luxo do Morumbi, coisa, assim, de George W. Bush na Casa Branca. Transposto o sistema de muro e portões de ferro, o mundo real fica lá fora e você entra em Disneyworld. Na casa em que está sendo filmado O Magnata, de alguma forma se repete a operação da entrada. O repórter e o fotógrafo podem percorrer os ambientes, entrevistar quem quiserem, mas o set, propriamente dito, está fechado e há uma explicação para isso - "Vamos rodar uma cena caliente", informa o diretor de produção. A cena desenrola-se à beira da piscina, numa casa cinematográfica, como você imagina que seja a de um Ronaldinho na Espanha. O Magnata do título é um astro pop, o roqueiro punk interpretado por Paulo Vilhena. Ele pegou duas mulheres na rua e agora participa de uma orgia. Todo mundo nu em cena. E não dá para fotografar?

Produção da Gullane Filmes, O Magnata promete. "Cara, este é o filme que queremos fazer", disseram Caio e Fabiano Gullane, quando o projeto lhes foi apresentado pelo roteirista Chorão - sim, é ele, o vocalista da banda Charlie Brown Jr. Tendo se iniciado profissionalmente no roller skate, Chorão chegou à música e agora faz a passagem para o cinema em parceria com Johnny Araujo. Um com 35 anos, o outro com 36, são amigos de longa data. Johnny realiza os clipes da banda. A proposta do roteiro é retratar a juventude com uma pegada especial. Skatistas, punks, grafiteiros compõem o universo do Magnata, acrescido do poder do dinheiro. Justamente o dinheiro. "Cinema exige sacrifício, dedicação, não dá dinheiro. Por que você quer tanto fazer esse filme?", perguntaram os Gullanes a Chorão. Sua resposta os arrebatou - "Porque é o filme que eu quero ver na tela."

O Magnata é esse garoto mimado, rico, órfão de pai e filho de mãe alcoólatra. No fundo, ele lamenta que o pai, e não ela, tenha morrido num acidente. Estragado por tanta riqueza, o herói forma uma banda, estoura e vive sempre no limite, trafegando num meio de marginalidade onde a sua condição financeira lhe vale o apelido. Tem um advogado que livra sua cara, não importa o que faça; a mãe, perua decadente que mantém a bolsa aberta; e entre uma orgia e outra envolve-se com duas garotas, uma que lhe acena com um novo mundo e outra que o puxa para maiores excessos. Ocorre algo irreversível que faz com que o universo do Magnata entre em choque com a realidade. E não há condomínio fechado que o livre do que está por vir.

Desde o início, Chorão pensava em Paulinho Vilhena para o papel. "Sempre quis fazer cinema e me surge um papel desses. Intenso, forte", diz o ator, que adotou o visual punk. Vilhena vai até cantar. "Essa não é a minha história, até porque nunca tive o dinheiro do Magnata nem me jogo na vida com a fúria destrutiva que ele tem, mas mentiria se dissesse que o personagem não tem coisas minhas", explica Chorão. Ele próprio está no filme como músico, integrando a banda do Magnata com João Gordo. "Eu sou eu, o João é ele mesmo. É a parte documentária do filme. O Magnata é a parte de ficção." Criar diálogos e até situações dramáticas é fácil para quem já produz música e trafega entre o skate, o rock, os estúdios de gravações e a periferia. Como Chorão coloca, "conheço todas as galeras. O mais difícil foi dar coerência dramática aos personagens". Ele teve uma mão do roteirista Braulio Mantovani, de Cidade de Deus. Como estreante vindo do videoclipe, Johnny, o diretor, sabe que corre o risco de ser etiquetado antes mesmo que as pessoas vejam seu filme. Admirador de Daren Aronofsky, Mathieu Kassovitz e Quentin Tarantino, ele dá duro para que O Magnata não seja só uma experiência audiovisual para platéias da MTV.

A dramaturgia é muito forte. Foi uma preocupação de todos - de Chorão, do diretor, da Gullane. O filme está na segunda semana de rodagem; tem mais quatro pela frente. "Tenho filmado cenas muito intensas que me deixam cansado, mas feliz", diz Johnny. Tendo se iniciado na montagem, ele filma pensando nos cortes, no que vai funcionar ou não, mas sempre de olho na complexidade dos personagens. Maria Luiza Mendonça faz a mãe. "Me convidaram para uma leitura do roteiro; eu fui por amizade, mas terminei seduzida." Mais que tudo, Maria Luiza ama o processo de criação dos filmes. Embora faça também teatro e TV, ela própria se define como um bicho de cinema. É nos sets que se sente em casa. Sua participação é pequena - cinco dias de filmagem, só naquele cenário do Morumbi, que ganha vida na direção de arte de Clóvis Bueno.

"Quando falei com o Johnny, estava disposto a fazer o filme com mini-DV, uma coisa pequena, alternativa", conta Chorão. Isso foi há quatro anos. Quando os Gullanes entraram na parada, há dois anos e meio, trouxeram a Buena Vista, por meio da Mira Vista, a produção chegou a R$ 7,2 milhões e a equipe de principiantes (o roteirista, o diretor, o fotógrafo André Modugno, que também veio dos clipes) foi enriquecida com profissionais experientes (Maria Luiza Mendonça, Clóvis Bueno). Chorão, que sempre deu murro em ponta de faca para sobreviver, está feliz da vida. O garoto pobre que hoje dá emprego para cem pessoas, possui uma grife e pista de skate em Santos, aberta para atividades comunitárias e sociais durante alguns dias da semana, não chega ao cinema a passeio. Chega com a esperança de dar o testemunho de sua geração e ficar.

   


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