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Beat Takeshi, terrível na pele de um pai autoritário
Consumido pelo Ódio trata da difícil adaptação de coreanos no Japão
Luiz Carlos Merten
Há algo de terrível na energia que emana da presença física de Takeshi Kitano na tela. Não é bem uma energia - é mais uma tensão, como se ele fosse um boneco desarticulado sempre prestes a explodir. O próprio Kitano sabe disso e explora o fato, mas em Hana-Bi - Fogos de Artifício, sua obra-prima, a violência é dosada pela ternura que marca a ligação do herói trágico com a mulher enferma. Kitano agora está de volta, e somente como ator, em Consumido pelo Ódio. Não se assina Takeshi Kitano, mas Beat Takeshi, como a persona que o transformou numa celebridade, primeiro na TV, no Japão.
A maneira mais fácil de definir Consumido pelo Ódio é dizer que se trata de um Poderoso Chefão oriental, retratando a dificuldade de adaptação dos coreanos que emigraram para o Japão e enfrentaram todo tipo de problema numa sociedade que lhes foi hostil. A narrativa começa nos anos 1920 e estende-se por mais de 70 anos. O começo tem a cara da clássica história de emigrantes. O convés do navio, as pessoas mareadas, o brilho de esperança nos olhos quando se ouve o grito de 'terra!', aqui, na verdade, substituído por 'Osaka!', onde chegam os coreanos desgarrados que querem reconstruir a vida. A história é a de um exílio, o de Kim, personagem do Beat Takeshi, visto pelo ângulo de seu filho.
'Este é meu pai', diz a voz em off. 'Esta é minha mãe', ele dirá mais tarde e o mais perturbador é que a ficção sombria tem um pé na realidade. Baseia-se no best seller de Sogil Yan, no qual o escritor expõe o que foi sua dolorosa história familiar. Pois o jovem que olha o horizonte com esperança transforma-se, no exílio, num cara violento, consumido pelo ódio, como diz o título brasileiro (o internacional é Blood and Bone, Sangue e Osso). No início, a impressão é de que o diretor coreano, radicado no Japão, Yoichi Sai vai filtrar seu Poderoso Chefão por uma retomada do igualmente clássico Pai Patrão, que os irmãos Taviani adaptaram do relato autobiográfico do escritor sardo Gavino Leda. É outro pai autoritário e cruel, o que permite ao Beat Takeshi substituir, com sua presença aterradora, o jovem esperançoso do começo. Kim abre uma fábrica, espanca e estupra a própria mulher, as amantes. É cruel com todos ao redor, filhos e trabalhadores, terminando por se impor como líder do bairro pobre de Osaka. Nem a chegada do filho mafioso (conforme indicam as tatuagens típicas da Yakuza) poderão refrear sua fúria. A situação entre os dois evolui para o confronto e a briga, que começa dentro de casa, prossegue na rua, com golpes de uma selvageria que a tornam quase impossível de assistir.
O cinema, principalmente o comercial, de Hollywood, filma muitas cenas de lutas, mas elas obedecem a uma estudada coreografia da violência que satisfaz a necessidade do público por agressão e movimento, dentro de parâmetros que as tornam (quase) inofensivas. O mundo divide-se em bons e maus e os últimos recebem as porradas que merecem. A violência de Consumido pelo Ódio é incômoda porque o personagem é antipático e, mesmo assim, na sua desarticulação física, no olhar atravessado e boca crispada, com aquela cicatriz, o Beat Takeshi lhe confere uma patética humanidade. É até difícil entender como e por que Kim é tão cruel, mas ele não é um vilão e pronto. O retrato é mais complexo. O filme é bom, mas sua violência produz exasperação no espectador. É crítica, não catártica, e nisso vai a diferença.
(SERVIÇO)Consumido pelo Ódio (Blood and Bones, Jap/2004, 140 min.) - Drama. Dir. Yoichi Sai. 18 anos. Espaço Unibanco Z 1 - 14 h, 16h30, 19 h, 21h30. Unibanco Arteplex 9 - 13h30, 16 h, 18h30, 21 h (sáb. também0 h). Cotação: Bom
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