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Julio Mesquita
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CADERNO 2
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  Em Segredo, a dor que consome

Vitória controversa em Berlim, filme de Jasmila Zbanic mexe nas feridas ainda não cicatrizadas dos conflitos da Bósnia

Luiz Carlos Merten

Não foi uma vitória tranqüila e a verdade é que a mostra competitiva do Festival de Berlim deste ano dividiu muito os críticos. A Berlinale ostenta a reputação de ser a mostra de cinema mais politizada do mundo, mas, este ano, a comissão de seleção parece ter exagerado e privilegiou os filmes mais pelo debate político que poderiam proporcionar do que pelas qualidades estéticas. Neste quadro, o Urso de Ouro atribuído a Em Segredo, de Jasmila Zbanic, está longe de ser uma unanimidade. Se fosse, seria, talvez, uma obra medíocre, porque não se pode agradar a todo mundo sendo ousado, por exemplo.

O estranho título original, Zrbavica, refere-se ao bairro de Sarajevo em que moram as personagens do longa de Jasmila. A diretora é croata e volta-se para uma das chagas ainda não cicatrizadas da Guerra da Bósnia, que, durante uma década, ensangüentou a antiga Iugoslávia. Ao contrário de Vittorio de Sica que, em Duas Mulheres, mostrou mãe e filha sendo violentadas durante a 2ª Grande Guerra, Jasmila conta, agora, outra história de mãe e filha, mas, talvez por ser mulher, a cineasta furta-se ao sensacionalismo do que poderia ser a violação, propriamente dita, e concentra-se em suas seqüelas.

A história é simples. Trata dessa garota que quer participar de uma excursão da escola e poderá conseguir isenção do pagamento da taxa se conseguir exibir o documento que comprova que o pai foi herói de guerra. É o que a mãe lhe diz, mas, ao cabo de um intenso dilaceramento familiar, a mãe termina por admitir que a garota é filha de pai desconhecido, pois ela foi violentada por soldados sérvios. O relato é seco, evitando sentimentalizar personagens e situações. Assim como a política, a herança do despojamento do francês Robert Bresson tem sido uma influência destacada em Berlim.

No ano passado, a Berlinale exibiu filmes como Paradise now e Sophie Scholl, Uma Mulher contra Hitler, que terminaram preteridos na premiação final em detrimento de um evento 'artístico' - a ópera filmada U-Carmen, do sul-africano Mark Dornford-May. Este ano foi como se o júri quisesse reparar a injustiça, premiando Em Segredo. O filme adota um tom semidocumentário intercalando as cenas de ficção com depoimentos de mulheres que integram um grupo de apoio a vítimas de estupro durante a Guerra da Bósnia.

Em conversa com o repórter do Estado, em fevereiro, a diretora disse que não existem registros estatísticos sobre o número de mulheres que sofreram esse tipo de violência, mas ele foi grande a ponto de incentivar o surgimento desses grupos de apoio em todas as cidades da Croácia. Ela acrescentou que o roteiro surgiu de intensas pesquisas com mulheres estupradas, reproduzindo diálogos e situações, mas sempre em chave ficcional, com atores - exceto nos depoimentos -, para evitar o que ela definiu como 'morbidez' ou 'danos que poderiam ser graves à psique' das vítimas.

A mãe é a personagem central, em choque com a filha que se relaciona com um garoto também marginalizado por sua origem familiar. Mas a mãe não se expressa só pela maternidade, em cena. Ela também é uma mulher que teme a aproximação masculina, justamente pelas violências que sofreu. A presença masculina - o pretendente, que também vive em Grbavica - introduz de novo o tema da violência, não mais no sentido da conotação sexual. O cara é cooptado para matar. Tudo isso somado, pode ser que o Urso de Ouro tenha sido excessivo, mas qualidades - artísticas, humanas e sociais - não faltam a esse filme intenso. Não existe definição mais bela do cinema do que a de André S. Labarthe - é a arte do presente esculpida pelo olho da câmera sobre o personagem. A atriz Mirjana Karanovic é maravilhosa. Mais do que pelo que diz, é pelo que oculta que ela passa a dor terrível que consome Esma, a mãe solteira de Em Segredo.

   


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