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CADERNO 2
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  Pai e filho

Em seu novo trabalho, o cineasta russo Alexander Sokurov faz uma celebração da vida a partir das relações familiares

Luiz Zanin Oricchio

Carlos Drummond definia a família como "uma estranha viagem através da carne". A estranheza era o mistério das gerações que se sucedem. Não é muito diferente o espanto (que, dizem, está na origem da sabedoria) do cineasta russo Alexander Sokurov. Ele, que já havia feito em 1996 seu Mãe e Filho, volta ao tema, alguns anos depois, com Pai e Filho.

Como acontece com os filmes de Sokurov, o tratamento visual às vezes é mais significativo que o chamado "enredo". Este mostra um pai (Andrej Shetinin), viúvo jovem, muito apegado ao filho adolescente (Alexei Neimyshev). Apegados demais, talvez. O filho vai fazer o serviço militar. O pai o acompanha ao quartel sempre que pode. Recorda o seu próprio tempo de soldado. O rapaz namora, mas a moça sente ciúmes do relacionamento demasiado próximo que o jovem mantém com o pai. O filme todo é insinuado, é banhado de uma sensualidade que às vezes se transforma em seu contrário, as brincadeiras físicas, a disputa entre homens fortes. Seria mesmo o seu contrário?

E o que dizer do tratamento visual? Este segue algumas características básicas do cinema de Sokurov - as cores dessaturadas, quase tendendo ao preto-e-branco. Uma certa estetização da imagem: na contramão do cinema contemporâneo, de visual geralmente apressado, tipo linha de montagem, nos filmes de Sokurov, pelo contrário, não se vê um único plano banal. Cada quadro é uma pintura. Trata-se de um tendência estetizante, quer dizer, que propõe uma beleza que se basta por si só? Pode ser, pode não ser - e o cinema de Sokurov motiva essa discussão, levada, inclusive, para o lado político.

Sokurov seria um nostálgico do czarismo, da assepsia estética aristocrática, como parece ficar bem claro em seu ousado Arca Russa, filme realizado em um único plano-seqüência. É também implacável com seu conterrâneo Lenin, mas não deixa de fazer um retrato igualmente cruel de Hitler em Moloch. Enfim, é um cineasta que não se recusa a tematizar as coisas da Terra, mas, vez por outra, busca flutuar na essência, por assim dizer. Busca a espiritualidade, embora, por paradoxo, pareça procurá-la bem à flor da pele, como neste Pai e Filho.

De qualquer forma, há uma mudança de inflexão de um filme para o outro. Em Mãe e Filho, o que se tem é a comovente presença de um rapaz junto à mãe moribunda, em suas últimas horas. Em Pai e Filho, não temos mais a presença da morte, mas a celebração da vida. Como por inversão, Sokurov se nega a ir na direção mais óbvia, que seria falar do Complexo de Édipo em relação à figura materna. Deixa isso para o pai, o que é bem menos evidente e, por isso mesmo, menos assimilado culturalmente, e controverso.

Assim, apesar da profundidade do filme em várias direções, o que mais ressalta para o público é essa sensualidade em filigrana que passa entre os dois personagens. Sokurov o faz com extrema delicadeza. Tudo é implícito, mas provoca polêmica assim mesmo. Quando o filme foi apresentado no Festival de Veneza, o diretor ficou revoltado com a pergunta de um jornalista sobre uma possível tendência homossexual da obra. "Só uma mente deturpada poderia pensar nisso", disse. E recusou-se a responder.

Talvez nem devesse responder mesmo, já que não é disso que se trata, mas de coisa bem diferente. Sokurov intui os elos sensuais que mantêm unidas a família, mas que ao mesmo tempo representam tensões internas que devem ser resolvidas. Porque, para o filho, o problema será enfrentar essa tendência à união até quebrar o elo e poder sair, para então criar os seus próprios e novos compromissos. É esse o movimento da vida.

A força de atração e repulsão que existe dentro da família tem sido tema de muitos filmes. Só para dar um exemplo, é, talvez, o assunto central de Saraband, o magnífico último trabalho de Ingmar Bergman, que saiu direto em DVD sem passar pelas telas. Há, no centro da história, a disposição de um pai viúvo em conservar sempre perto de si uma filha que deseja conhecer outros ares. Enfim, ela deseja tornar-se sujeito da sua própria história. O drama de Saraband se desenrola em torno da necessidade dessa ruptura e também da dor que ela causa.

Bergman é maravilhoso por sua intensidade, e também em sua clareza. Depurou-se a ponto de fazer de um tema complexo algo simples. Ao menos na aparência. Sokurov trabalha em outra esfera. Busca um plano quase metafísico para estudar a carnalidade da relação entre pai e filho. E, por isso, a ruptura terá também sentido simbólico, como na ambientação rarefeita dessas imagens captadas tanto em São Petersburgo quanto em Lisboa. A dizer que esse tipo de drama não tem tempo nem local determinado, por ser universal.

(SERVIÇO)Pai e Filho (Father and Son, Rús-Ale/2003, 84 min. )- Drama. Dir. de Aleksand Sokurov. 18 anos. Espaço Unibanco 1 - 14h40, 16h30, 18h20, 20h10,22 h (3.ª não haverá 20h10 nem22 h). Cotação: Ótimo

   


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