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Favela Rising mostra a saída pela arte
Filme registra experiência bem-sucedida em Vigário Geral
Luiz Zanin Oricchio
Há em Favela Rising um personagem principal, Anderson, cuja saga serve como fio condutor dessa história de superação. Mas o protagonista desse documentário de Jeff Zimbalist e Matt Mochary seria mesmo a comunidade de Vigário Geral, no Rio de Janeiro.
Anderson é um rapaz da comunidade que, como quase todos, chegou a flertar com o tráfico de drogas. No entanto, teve uma sorte no meio do percurso: encontrou nas oficinas do grupo Afro Reggae um outro caminho. Tornou-se vocalista e chegou a presidente da instituição. Hoje é um dos seus porta-vozes. Anderson esteve na pré-estréia do filme, terça-feira no CineSesc e acompanhou na tela algumas passagens de sua vida.
Entre outras, uma muito irônica, se o termo cabe. Os jovens dessas localidades violentas temem muito ser vítimas de uma bala perdida, por exemplo. Mas Anderson acabou se ferindo no mar do Arpoador, surfando. Fraturou a 4ª vértebra e, por pouco, não fica tetraplégico. Era mais uma volta por cima na vida que tinha de dar.
Essa história seria exemplar, e não apenas um desses casos de superação pessoal de que o cinema está cheio, não fosse ele também um rapaz pobre e negro que teve o destino de nascer em uma das regiões mais violentas do planeta. Assim, o interesse da dupla de diretores americanos não parece se restringir a Anderson ou gente como ele, mas estudar um caso particular de violência causada por uma série de fatores (má distribuição de renda, a principal delas) e, também, como é possível encontrar saídas viáveis, apesar de tudo.
No limite, Favela Rising enquadra-se no que se costuma chamar de filme-ONG. Quer dizer, parte de uma situação desfavorável do ponto de vista social e propõe saídas, não necessariamente políticas, para resolver impasses. No caso brasileiro, pós-massacre de Vigário Geral (lembrado no filme), da Candelária, do Carandiru e outros, parece bastante óbvio que a questão social tende a ser tratada como caso de polícia, como queria um político do passado.
No caso das ONGs, a percepção parece ser de que as saídas políticas estão ou esgotadas ou tendem a não resolver os problemas reais, já que a sucessão de governos costumam cair na mesmice. A solução, ou pelo menos a busca de atenuação de problemas, passa então a ser buscada no interior das comunidades interessadas. É de sua mobilização, percebe-se, que pode surgir alguma luz.
No caso do Afro Reggae, essa "luz no fim do túnel" parece exemplar. Trata-se de providenciar uma alternativa cultural para a atração que o tráfico exerce sobre os jovens da favela. Pelo que dizem os moradores da comunidade, é quase impossível evitar a tentação da vida fácil. A dificuldade material associada ao desejo de consumo leva à alternativa mais fácil. Em dado momento, Anderson diz algo sábio: "É a roupa que leva ao tráfico." Quer dizer, o adolescente carente quer vestir uma roupa transadinha, quer os tênis da moda e não tem como satisfazer esses desejos que são vendidos pela publicidade como imprescindíveis. A armadilha está quase pronta.
A saída pelo Afro Reggae é civilizatória. A arte contra a barbárie, conforme se vê neste filme emocionante.
(SERVIÇO)Favela Rising (Br-EUA/ 2004, 80 min.) - Documentário. Dir. Jeff Zimbalist e Matt Mochary. 16 anos. Unibanco Arteplex 5 - 15 h, 16h40, 18h20, 20h10. Cotação: Bom
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