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Um manual de realismo político
Bolívia: História de uma Crise ganha interesse extra neste ano eleitoral
Luiz Zanin Oricchio
O sucessivos lançamentos da Video Filmes, tanto no cinema como em DVD, mostram os caminhos de inspiração de um dos seus donos, João Moreira Salles, para seu documentário Entreatos, sobre os bastidores da campanha presidencial de Lula. Em DVD saíram Primárias e Crise, ambos de Robert Drew. Agora, ao cinema, chega Bolívia: História de uma Crise, de Rachel Boynton. São exemplares do que se chama de "cinema direto", técnica documental que procura captar, digamos, a "verdade" do seu sujeito num tipo de filmagem que busca o corpo-a-corpo com os fatos. É um cinema que tem muito a ver com certo ideal do jornalismo investigativo, essa área da mídia que parece um tanto caída em desuso.
No caso de Bolívia, trata-se para a cineasta Rachel Boynton de acompanhar a eleição do candidato Gonzalo Sanchez de Lozada, chamado de "Goni", para a Presidência da Bolívia, contra outros concorrentes, entre eles o atual presidente Evo Morales. Goni já havia governado seu país e tornara-se conhecido por sua plataforma neoliberal e privatizante, um programa que ele chamava de "capitalização", pois acreditava que a venda das empresas estatais atrairia o capital estrangeiro para a Bolívia.
As câmeras não ficam apenas sobre Goni, mas talvez ainda mais sobre o famoso marqueteiro político americano James Carville e sua equipe. São eles que vão para a Bolívia para tentar (e conseguir) eleger o americanófilo Goni, um boliviano educado nos Estados Unidos, para onde aliás partiu depois de destronado por uma crise que liquidou seu governo.
O interessante é seguir as reuniões do marqueteiro com Goni e as tentativas de reverter a péssima imagem que ele tinha perante a opinião pública. O político era visto como arrogante, distanciado do povo, um vendilhão do país. Mesmo assim, através da hábil manipulação de sua imagem, Carville e equipe conseguem elegê-lo por uma margem mínima sobre o segundo colocado: 22% contra 20%. A falta de sustentação popular acabou por lhe custar o mandato, assim que estourou a crise econômica e ele aumentou impostos para tentar detê-la. Goni saiu fugido do país, seu vice assumiu e quem se beneficiou desse caótico governo impopular foi Evo Morales, atual presidente, que ganhou na eleição seguinte.
A persona de Goni não deixa de ser fascinante, com seu ar anglo-saxão e charutos de luxo em um país de maioria pobre e indígena. Parece um peixe fora d'água e tão deslocado na realidade do seu povo quanto um pingüim no Saara. Mais curioso ainda é ouvir os marqueteiros americanos chamados para resolver um problema eleitoral e que para lá se deslocam como bons profissionais, como se fossem encanadores dispostos a consertar um sifão com vazamento, ou técnicos de informática diante de uma rede de computadores que deu pau. "Isso é apenas um negócio", diz um deles, com franqueza.
Mas um dos auxiliares se anima a discorrer sobre a nobreza da missão a que se propõe. Estão lá levando um modelo de democracia liberal, na qual acreditam. Assim, diz-se convencido que Gonzalez de Lozada é, de fato, o melhor candidato, aquele que, por suas idéias, poderia trazer o melhor benefício ao seu povo. O registro de Rachel Boynton é objetivo. A esta fala, provavelmente vazia, nada se contrapõe. É apenas o discurso de um profissional, desejoso de embelezar sua missão e dar-lhe um caráter, digamos, ideológico. A missão civilizatória norte-americana, levar a democracia, a sua democracia aos outros povos, ainda que seja pela força, ou por meio de mutretas eleitorais. Não importa, porque os fins justificam os meios, como parece que disse um certo pensador florentino do século 16.
James Carville, o capo, é o mais direto entre eles. Ele cunhou uma frase famosa quando dirigiu a campanha de Clinton à Presidência: "É a economia, estúpido!" Queria dizer que Clinton deveria atentar mais para aquilo que atingia diretamente o bolso do americano médio do que às grandes questões da política externa do país. Frasista, comenta a importância do timing numa campanha. "É como num ato sexual: você precisa chegar ao clímax na hora certa, mas nem sempre isso é controlável."
Por aí se vê de que tipo de gente a política passou a depender. Inútil dizer que Bolívia: História de uma Crise tem interesse em qualquer tempo, mas sobretudo num ano eleitoral.
(SERVIÇO)Bolívia: História de Uma Crise (Our Brand ir Crisis, EUA/2005, 87 min.) - Documentário. Dir. Rachel Boynton. 12 anos. Espaço Unibanco 3 - 14 h, 16 h, 18 h, 20 h, 22 h (sáb. não haverá 22 h). Cotação: Bom
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