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Sexta-feira, 11 agosto de 2006   edições anteriores
ECONOMIA & NEGÓCIOS
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  Juro alto espanta 80% dos que buscam crédito

Nos últimos 2 anos, 71% dos consumidores interromperam algum processo de obtenção de financiamento por medo de não poder pagá-lo

Renée Pereira

Oito em cada dez consumidores já desistiram de fazer algum tipo de empréstimo por causa das elevadas taxas de juros. Segundo levantamento feito pela empresa de pesquisas TNS InterScience, a maioria das pessoas entrevistadas para o trabalho tem forte preocupação com os juros e teme não conseguir honrar a dívida, além de ficar com o nome sujo na praça. Só nos últimos 24 meses, 71% dos consumidores interromperam algum processo de crédito devido às taxas exorbitantes.

A pesquisa foi feita com pessoas de ambos os sexos, das classes A, B e C, com idade acima de 18 anos, que tenham algum tipo de produto financeiro (conta corrente, poupança ou cartão de crédito) e com renda familiar mensal mínima de R$ 500.

"Nessas classes, o consumidor está cada vez mais consciente do impacto dos juros na hora de comprar produtos ou fazer algum tipo de financiamento", afirma o presidente da TNS, Paulo Secches.

De acordo com a pesquisa, 98% dos consumidores ouvidos consideram a taxa cobrada nas diversas modalidades de crédito altas ou proibitivas. Quase 70% das pessoas atribuíram ao cheque especial o título de campeão dos maiores juros. Em seguida ficou o empréstimo em banco (68%) e o crediário das financeiras (68%).

Para essas pessoas, a percepção é que os juros aumentam em 75% o valor do bem a ser financiado. Mais da metade dos entrevistados, cerca de 58%, comprariam mais se as taxas fossem mais baixas.

"Esses indicadores nos levam a concluir que, mesmo com a ampliação do crédito, as taxas continuam a influenciar fortemente o comportamento de compra e a inibir o acesso ao crédito e consumo", diz Secches.

Mas, na avaliação do economista da Austin Rating Alex Agostini, essa consciência toda só existe nas classes mais altas e média e não na classe baixa. Para ele, o público D e E acaba comprando independentemente do nível dos juros. "Nesse caso, vale, sim, a máxima de que o consumidor compra se a parcela couber no seu bolso."

AS MAIS LEMBRADAS
A modalidade de crédito que mais sofreu com a desistência dos consumidores foi o empréstimo pessoal (43%) oferecido pelos bancos, seguido pelo crediário das financeiras (36%) e crediário de loja (23%). Apesar disso, o empréstimo em banco é o mais conhecido dos consumidores entrevistados, além do cartão de crédito. Cerca de 61% das pessoas ouvidas têm um cartão de crédito.

Diante dos números, Secches, que coordenou o trabalho, acredita que há um espaço enorme para o crédito crescer no Brasil. Hoje os empréstimos e financiamento respondem por apenas 32% do Produto Interno Bruto (PIB). No Chile, o índice é de 60%; nos Estados Unidos, de 80%; e na zona do euro, de 105%.

Sobre o risco de endividamento dos consumidores, ele acredita que o País está longe do limite. "No ano passado, fizemos um estudo sobre o assunto e percebemos que, na média, apenas 8% da renda dos consumidores estão comprometidos com o pagamento de empréstimos. Portanto estamos longe da saturação", afirma ele, acrescentando que o mercado de crédito tem muito a crescer. "A indústria de crédito para pessoa física no Brasil é recente."

Secches argumenta, ainda, que as instituições financeiras ainda têm muito a aprender. Hoje, diz ele, elas estão muito preocupadas se vão receber o valor do empréstimo em 10 ou 20 dias. Acabam levando o consumidor para a lista de maus pagadores e o tira do mercado.

"É preciso fazer gestão de inadimplência, de dívida, onde a renegociação e o alongamento dos juros é o foco. Isso rende dinheiro, é um ótimo negócio", afirma. O executivo diz que algumas experiência começam a aparecer no Brasil, como é caso das Casas Bahia, que renegocia ou perdoa a dívida para que o consumidor volte a comprar nas lojas da empresa.

   


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