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Jonathan Foer, falando de pessoas
Autor de Tudo se Ilumina e Extremamente alto & Incrivelmente perto diz que História, para ele, é a tela, não a pintura
Antonio Gonçalves Filho e Ubiratan Brasil
Jonathan Safran Foer está em Paraty com a mulher Nicole Krauss e o primeiro bebê do casal, Sasha. Ambos são representantes da novíssima geração de escritores americanos surgida na era da internet. Jonathan, de 29 anos, é mais conhecido que Nicole, de 30, não só por ter dois livros aqui lançados (Tudo se Ilumina e Extremamente alto & Incrivelmente perto", ambos pela Rocco ) como pelo primeiro ter sido adaptado para o cinema por Liev Schreiber com o ator Elijah Wood no papel do autor, que vai à Ucrânia pesquisar a vida do avô, salvo dos nazistas por intervenção de uma misteriosa mulher. Nicole, embora menos popular, é tão ambiciosa como o marido quando se trata de literatura. Sua influências em A História do Amor (Companhia das Letras) são Philip Roth e Isaac Bashevis Singer, o que não é pouco. Em suas entrevistas concedida ao Estado, os escritores revelam, ainda, outros modelos, além de falar de projetos extra-literários. Abaixo, a entrevista de Jonathan Safran Foer.
Seu primeiro livro, Tudo se Ilumina, trata indiretamente do Holocausto. O segundo, Extremamente alto & Incrivelmente perto, dos atentados terroristas do 11 de Setembro. O que se pode esperar de seu terceiro livro?
Realmente, é de se esperar uma nova catástrofe (ri). Mas, falando sério, não acho que tenha escrito um livro sobre o legado do Holocausto ou sobre terrorismo. Queria contar histórias pessoais, não produzir livros políticos. Em ambos os casos, os acontecimentos históricos são a tela, não a pintura. Queria escrever livros que gostasse de desfrutar como leitor, não como escritor, obras que falassem de indivíduos, e não de grupos ou nações. No caso do primeiro livro, as referências históricas eram inevitáveis. Tratava-se da história de minha própria família, do ambiente em que fui criado. Não é, portanto, nenhuma surpresa que em meu primeiro livro falasse da Segunda Guerra. Não foi deliberado. Você pode escrever o primeiro livro por acidente, mas o segundo estabelece certo padrão, o que torna o terceiro um empreendimento ainda mais difícil. É preciso evitar equívocos e estar muito certo do que se quer dizer.
O nome do personagem de seu segundo livro, Oskar, foi inspirado pelo garoto de O Tambor, do alemão Günter Grass. Você se sente mais atraído pela literatura européia que a americana?
Sem dúvida. A literatura americana contemporânea, pelo menos a dos últimos quatro anos, parece inundada por grandes livros e pequenas idéias. A literatura européia, ao contrário, tende a ser mais sintética e mais rica na discussão de grandes temas existenciais. Os escritores americanos praticam, digamos, uma literatura sobre temas domésticos como casamento, divórcio, vida nos subúrbios e essa espécie de coisa.
Quem são os escritores europeus que você lê com mais freqüência?
São tantos. Deixe-me consultar minha lista. Vejamos: adoro Günter Grass , Italo Calvino, Sebald. Mas também gosto dos latinos, Borges especialmente, além de García Márquez, Roberto Bolaño.
Do ponto de vista estilístico, o que significa para você partir de uma história real para construir uma narrativa com elementos fictícios?
Não estou bem certo que a história real de minha família supere a invenção literária em Tudo se Ilumina. Essa é uma conclusão de alguns leitores, que devo respeitar, mas não aceitar. Você pode contar a mesma história segundo o ponto de vista de um economista ou de um psicanalista e ela parecerá absolutamente distinta em ambas as versões. O modo que um artista ou um autor descrevem o mundo é condicionado por sua formação. Não há como fugir disso.
Você fez 39 esboços de Extremamente alto & Incrivelmente perto, o que nos leva a concluir que estamos diante de um perfeccionista. Você sofre para escrever?
Não me considero muito diferente de outros escritores. Acho que todos eles escrevem e revisam seus livros dezenas de vezes. Costumo escrever num café. Não consigo produzir em casa. Fico divagando e não levo comigo nenhuma idéia prévia do que vou escrever. Talvez seja a razão dessa revisão permanente.
Escrevendo em cybercafés e acessando a Internet, você pertence a uma geração plugada na rede e, paradoxalmente, não parece ser um autor que elegeu como interlocutores outros escritores jovens, preferindo a companhia de velhos autores. Como você explica isso?
Creio que esse é o aspecto mais maravilhoso da literatura, o de estabelecer uma ponte entre gerações distantes. Como qualquer escritor jovem, quando penso num personagem, imagino um cara de vinte e poucos anos morando em Nova York e fazendo coisas muito parecidas com as que eu faço. Depois, penso que há milhares de outros jovens no Japão, na Europa e em outras partes do mundo pensando exatamente a mesma coisa. Aí vem a iluminação. Sinto que estou mais ligado na tradição da narrativa épica de Homero que na literatura de David Forster Wallace.
Voltando à metáfora da primeira pergunta, em que você compara o ato de escrever ao de pintar, lembro de uma entrevista em que você citou como afinidade eletiva a pintura expressionista abstrata de Jackson Pollock. Isso revelaria uma preferência por gestos expansivos, voluntariosos? Você destrói mais que constrói?
(Ri). Certamente. Escrever não é o mais difícil, mas discernir o que é mais importante. Existem autores que você descobre numa livraria, leva para casa, lê, fica satisfeito com a construção rigorosa de seus livros e, depois, o recoloca na estante e nunca mais pensa neles. Por outro lado, existem outros que produzem uma literatura fragmentada, confusa, que provoca certo desconforto e, apesar do incômodo, desperta em você o desejo de escrever como eles. Passa-se, enfim, algo semelhante a um espectador diante da pintura de Pollock.
Não é muito freqüente ouvir de escritores de sua geração pronunciamentos sobre a guerra do Iraque ou do Líbano. Como você explica essa omissão?
Talvez pela inexperiência. Pessoas da minha geração ainda não viveram o suficiente para tirar conclusões sobre assuntos tão complexos. Eu mesmo não me sinto capacitado a dar opiniões, primeiro porque não sou crítico e, por último, não me atreveria a falar sobre algo que envolve tantos lados.
Você exerceu várias profissões antes de se tornar escritor. Foi ghost writer de uma revista médica, assistente numa funerária, enfim, exerceu atividades diversas. Elas ajudaram você a construir sua literatura?
Às vezes elas foram extremamente frustrantes e não ajudaram em nada, definitivamente. Vejo que as pessoas fazem tudo automaticamente, sem paixão . Por exemplo, quando decidi visitar a Ucrânia em busca da história de meu avô, que deu origem a Tudo se Ilumina, topei com um intérprete burocrata, que mais atrapalhou que ajudou. De qualquer modo, seu enorme desinteresse me levou a exercitar minha imaginação e construir uma nova história. Creio que minha experiência não serviu de nada num país estrangeiro, mas poderia ter sido útil se eu decidisse escrever romances policiais, considerando minha breve passagem como empregado de uma funerária. A necessidade é mãe da invenção, como você sabe.
Você gostou da versão para o cinema de seu livro Tudo se Ilumina?
Ela é aceitável. Não penso muito a respeito. Fui ver o filme numa sessão quase deserta com dois espectadores. Um deles saiu no meio.
Sei que você gosta muito de música. Já tentou algo na área?
Eu e meu irmão tivemos um grupo. Toco instrumentos de percussão, guitarra e piano, mas não sou muito bom nisso. Sou só um amador. Por outro lado, tive uma primeira experiência recente e gratificante com música erudita, uma ópera na Alemanha chamada Sete Tentativas para Escapar do Silêncio. É uma obra experimental muito difícil de descrever, mas, basicamente, trata de um lugar para onde pessoas são enviadas, ou escolhem ir, e onde devem permanecer em silêncio. Elas podem falar, mas não por meio de palavras.
Sua mulher, Nicole Krauss, também escreve, aliás, muito bem. Ela parece mais influenciada que você por escritores judeus como Philip Roth e Isaac Bashevis Singer. Vocês discutem literatura em casa?
Sim, naturalmente, mas não muito. Quando volto para casa, estou tão cansado de escrever que não tenho mais disposição para discutir. É como aquela piada de ginecologista, você sabe, aquele em que ele volta para casa e, ao ser abordado pela mulher, ansiosa para fazer amor, rejeita o convite com um olhar de desânimo após ver tantas... bem, você sabe o resto... (risos)
Em sua opinião, há uma intersecção entre a linguagem jornalística e a narrativa ficcional?
Sim, de alguma maneira, mas não gostaria de receber notícias de um literato nem ler uma novela produzida por um jornalista. Se for cruzar uma ponte com meu carro, quero ter certeza de que ela foi construída por um engenheiro.
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