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O tema duro da prostituição infantil
Anjos do Sol, de Rudi Lagemann, é obra honesta que aborda, de forma humana, um enorme problema do Brasil
Luiz Carlos Merten
Rudi Lagemann, o Foguinho, pertence à geração de cineastas gaúchos que surgiu nos anos 1980, realizando filmes na bitola super-8. Foguinho subiu ao palco do Palácio dos Festivais, na quarta-feira à noite, para apresentar seu longa Anjos do Sol, em competição. Subiu, chamou a equipe, desceu e pisou com o pé direito na escada de acesso ao palco. O Palácio dos Festivais de Gramado é um templo do cinema para Foguinho e muitos de sua geração, que sonharam pisar naquele território. Anjos do Sol foi calorosamente aplaudido pelo público. O filme estréia hoje em São Paulo. Serão 60 cópias em capitais e localidades importantes do interior do Brasil.
Anjos do Sol trata de um tema duro - a prostituição infantil. Conta a história dessa menina que, na cena inicial, é vendida pelo pai, iniciando a trajetória que a leva se prostituir num garimpo, à beira da selva, a fugir e a encontrar outra selva na cidade grande. Foguinho baseou-se em pesquisas e depoimentos que levantou ao longo dos anos, trabalhando com grupos de apoio a jovens prostitutas. "Selecionei, entre os depoimentos, aqueles que me pareciam os mais representativos e eram muito próximos, embora relacionados a diferentes pontos do Brasil."
Foguinho tem um currículo e tanto. Colaborou com grandes diretores do cinema brasileiro, entre eles Ruy Guerra e Tizuka Yamasaki, que integram, respectivamente, o júri latino e o brasileiro do 34.º Festival de Gramado. Ligou-se à Videofilmes como documentarista e, como realizador de comerciais (fez mais de 300), foi eleito o diretor do ano pela Associação Brasileira de Propaganda. Ele nunca pensou no formato do documentário para tratar da prostituição infantil? "Não, entre outras coisas porque não poderia dar rosto às meninas. Teria de desfocar o rosto delas e me parece que isso estimula a indiferença. É preciso que as pessoas olhem na cara para ver se tomamos vergonha e erradicamos o horror da prostituição infantil."
Existe toda uma campanha (válida e necessária) contra o turismo sexual. Mas não são só os gringos que vêm usar essas meninas. Nas suas pesquisas, Foguinho conheceu meninas como aquela que, em Salvador, era chamada de 50 Centavos, por ser esse o valor que cobrava dos clientes. É um universo muito sórdido e cruel e, desde o início, o diretor foi consumido por dúvidas éticas - o que mostrar, como mostrar, até onde mostrar? "Não tenho um estilo e, para o meu primeiro longa, adotei o que me parecia mais adequado para o tema. Simples, direto e potencializando o que havia de mais dramático na história." A simplicidade, no caso, é produto de muita elaboração entre Foguinho e seu diretor de fotografia, Toca Moraes. Se ficou bom, ele não sabe, mas fez o filme que queria, como queria. "Quem apoiou, o fez de coração, sem cobrar nada. Gostaria de poder restituir o que as pessoas investiram no meu trabalho, mas, sinceramente, querer ganhar dinheiro com um filme desses me parece que seria algo obsceno, que eu seria apenas mais um explorador dessas meninas."
Existem várias garotas na história, mas duas, Fernanda Carvalho e Bianca Comparato, ocupam os papéis principais. Foguinho chegou até elas após um longo trabalho de seleção. Bianca, depois, foi atriz na novela de Sílvio de Abreu, Belíssima. "Ela era uma patricinha quando chegou ao set. Fernanda era tão menina que eu tinha muito pudor de pedir para ela as coisas mais elementares da atividade da personagem, embora sua mãe estivesse sempre presente durante a filmagem." As duas são a alma e o melhor de Anjos do Sol. Tiveram acompanhamento psicológico e preparador físico para suas cenas.O filme não transforma um caso exemplar numa trama regeneradora. Todas as mãos que se estendem para ajudar a garota, na verdade, têm o objetivo de explorá-la mais um pouco. Foguinho não propõe uma solução, que seria falsa, dada a imensidade do problema. Neste sentido, pode-se traçar uma ponte entre Anjos do Sol e Serras da Desordem, de Andrea Tonacci, que abriu o festival, na segunda à noite. Um é mais tradicional, Anjos do Sol, outro é mais experimental, Serras da Desordem, mas em ambos os casos parecem sem solução, o do índio como o da prostituta infantil. Aliás, os dois diretores querem fugir aos estereótipos e que tanto o índio como a prostituta não sejam rotulados como tal, mas encarados como gente, porque no mundo atual, consumista e alienado, o espectador, no conforto de sua poltrona, pode até achar que está a salvo, mas não é muito diferente de um e outra. Mesmo que não seja um grande filme, Anjos do Sol é honesto e coloca, de maneira humana, um problema com que o Brasil ainda vai ter de se digladiar.
(SERVIÇO)Anjos do Sol (Brasil/2006, 92 min) - Drama. Dir. Rudi Lagemann. 14 anos. Em grande circuito. Cotação: Regular
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