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Olha aí o filme da Clarinha...
Nas telas, o premiado documentário que levou à TV a menina Joana Mocarzel
Luiz Carlos Merten
Documentarista consagrado - ganhou a Margarida de Prata, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, por À Margem da Imagem, e foi multipremiado por Do Luto à Luta, no Festival do Recife -, Evaldo Mocarzel diverte-se com sua nova identidade. Ele é agora o pai de Joana Mocarzel. A Clara de Páginas da Vida virou a estrela da casa. O autor da novela, Manoel Carlos, descobriu-a por meio do filme que Evaldo realizou. Maneco ficou tão sensibilizado que incluiu uma bandeira na novela das 8, da Globo - a da inclusão social dos downianos.
Evaldo não imaginava, sinceramente, que isso pudesse ocorrer. A realidade terminou por transcendê-lo. Está feliz da vida. Gosta de dizer que Do Luto à Luta é o filme que gostaria de ter visto quando o médico lhe disse, logo após o parto, que Joana tinha Síndrome de Down. Há tanta desinformação, tanto preconceito, que Evaldo pensou que ia morrer naquele momento. Só que transformou o luto em luta. Fez isso através do cinema e também cercando a filha de todo atendimento que a ciência pode lhe fornecer. Joana desabrochou. É a gracinha que o público vê toda noite na TV.
Há um momento do filme muito revelador. O garoto downiano pergunta, à queima-roupa, por que Evaldo quis fazer Do Luto à Luta. Na hora, Evaldo ficou surpreso. Não sabia, por uma distração de momento, que o diretor de fotografia havia passado a câmera ligada para o garoto. A pergunta desconcertou-o. Ele riu e desconversou. Deu uma resposta institucional, falou na necessidade de inclusão dos downianos, um discurso meio pronto. O exibidor Adhemar Oliveira, que viu a primeira montagem do filme, disse - tira isso. Ele tirou, mas manteve a gargalhada. Levou a segunda montagem ao crítico, escritor e professor Jean-Claude Bernardet, que foi incisivo. Bernardet achou que a gargalhada era ofensiva. Refez a pergunta para Evaldo e lhe deu a resposta - 'Por que você fez o filme? Não é por que tem uma filha com Síndrome de Down? Assuma!' Evaldo assumiu. Na edição final, como aparece no filme, à pergunta e à sua surpresa seguem-se as cenas de Joana. Evaldo fez o filme por causa da filha. Agradece aos amigos, ao montador Marcelo Moraes, porque nenhum filme é obra de uma só cabeça.
É um filme sincero, muito bonito, emotivo. E é engraçado, porque os downianos que Evaldo filma não são coitadinhos. São divertidos, dizem coisas espirituosas. Você, em momento algum, ri deles - ri com eles, o que é diferente. Além de Joana, existem Abel e Rita, que se casaram. Existe o garoto surfista, existe o pesquisador, tão bem informado que dá uma aula, para leigos, sobre o que é a Síndrome de Down. Joana tinha 4 anos quando Evaldo filmou. Tem agora 7. O pai orgulhoso diz que aprende continuamente com ela. A voz popular diz que os downianos não têm desenvolvimento motor, que morrem cedo, do coração, que necessitam de ajuda para tudo. Não é verdade. O downiano só não é normal porque, você sabe, de perto ninguém é. O que ele tem, e é verdade, é uma dificuldade de origem cognitiva. O downiano não trabalha bem conceitos abstratos. Vive o presente. Nesse sentido, a novela está sendo uma experiência fantástica para Joana. Ela não é Clara. Sabe que está representando. Descobriu, na prática, que está imersa em ficção.
Manoel Carlos reservou-lhe um tratamento vip. A estrela da novela pode até ser a Helena de Regina Duarte, mas quem tem direito de mudar as falas e construir seu diálogo é Joana, a Clara. Outro dia, Joana ficou seis horas no estúdio gravando as cenas do aniversário de Clara. Todo mundo arriou, diretor, colegas de elenco. Ela se divertiu muito. Em casa, não perde um capítulo, assistindo com a irmã, Laura, e o irmão Mateus. E que alguém ouse fazer barulho, na hora em que aparece. Ela vai exigir silêncio, atenção. O processo para realizar Do Luto à Luta foi complicado. Evaldo inscreveu o projeto em vários concursos. Não ganhou nenhum. Ganhou apoio da Petrobrás por meio de um programa que nem é de cinema, mas de assistência ao desenvolvimento de pessoas especiais.
Consciente da importância do trabalho, Evaldo fez 5 mil cópias de Do Luto à Luta, que foram gratuitamente encaminhadas para pais, mestres e associações de todo o Brasil. Concebeu o filme para difusão em três etapas - uma, mais institucional; outra, para formadores de opinião; a terceira, visando o público. Essa terceira, o lançamento nas salas, coincide com a transformação de Joana em estrela de TV. Sem nenhum preconceito, sem temor, vá ver Do Luto à Luta - você vai ver uma menina adorável e um filme feito com paixão e honestidade, por um pai que também é cineasta. Poderia ser só um documentário bem intencionado. É muito mais que isso - bom cinema.
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