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A vida amazônica de William James
Filósofo americano aos 23 anos engajou-se em expedição pelo Brasil e sua produção, inédita, sai em livro
Jotabê Medeiros
Em 1865, quando tinha 23 anos, o filósofo William James (o americano que popularizou o termo “pragmatismo”, essa que é considerada a maior contribuição da América para o mundo) estudava na Harvard Medical School. Quando soube que um dos seus professores, o naturalista Louis Agassiz, ia partir com uma expedição para o Brasil, ofereceu seus serviços como voluntário.
Durante um ano, William James (1842-1910, irmão mais novo do escritor Henry James) viajou pelo Rio, Belém e Manaus, subiu o Rio Solimões e contraiu varíola (que degringolou numa seqüela oftalmológica, e as marcas disso ficaram com ele o resto da vida). Curado, embrenhou-se pelo País, flertou com as moças, coletou plantas e animais e, nesse tempo, fez desenhos e esquetes e mandou cartas para a família.
O resultado dessa experiência acabou num arquivo da Harvard University, inédito até hoje. Mas que, agora, se revelou por inteiro. Está tudo no livro Brazil Through the Eyes of William James - Diaries, Letters, and Drawings, 1865-1866, diários que revelam os dramas pessoais, descobertas, alegrias e hesitações do pensador. O feito de trazer à luz aquele período da vida de James foi da pesquisadora brasileira Maria Helena P. T. Machado, doutora da USP, que, com uma bolsa da Fapesp, mergulhou nos arquivos Houghton da Harvard e resgatou o material, as cartas, esboços, desenhos e anotações incipientes do autor. O livro foi publicado em edição bilíngüe. A jornada de que James participou, a Expedição Thayer, visava a rebater as teses de Darwin, e tinha também outros notáveis, como o geólogo Charles Hartt e o ilustrador Jacques Burkhardt.
Não é por acaso que Maria Helena dá ao seu primeiro capítulo o título O Adão Norte-Americano no Éden Amazônico. Para a autora, todas as grandes descobertas da vida do autor começaram com aquela viagem pelos rincões do Brasil, e é por isso que ela cita Thoreau logo no início. “Que significado tem um curso de história, filosofia ou poesia, não importando quão bem selecionado ou na melhor sociedade ou com a mais admirável rotina de vida, quando comparado à disciplina de se estar sempre olhando aquilo que existe para ser visto?”
No Brasil, William James deixou-se seduzir menos pela terra do que pelas pessoas. Chegou a alimentar amores platônicos e outros mais objetivos, como o que nutriu pela bela Jesuína, que conhecera em um baile em Santarém: “Ah, Jesuína, Jesuína, minha rainha da floresta, minha flor do trópico, por que não pude fazer-me a vós inteligível? Porque meu português é apenas ‘suficiente para as minúcias da vida’ e não para a expressão de todos aqueles matizes de emoção que penetram minha alma”, escreveu.[/O RIO] [O RIO]O desfecho dessa história é engraçado: depois de gastar uma hora ao lado da rapariga, ela disse que não entendeu lhufas da conversa do estrangeiro.
O início de todo o trabalho de resgate da viagem de James deu-se entre 2003 e 2004, quando Maria Helena, vinculada ao David Rockefeller Center for Latin American Studies (DRCLAS), foi para a Harvard University como Brazilian Visiting Fellow. “Ao iniciar meu período de pesquisas lá, passei por referências bibliográficas que me informaram da passagem de William James pelo Brasil. O que mais me aguçou a curiosidade era a participação dele como membro da Expedição Thayer, liderada por Louis Agassiz, expedição esta marcada pelo caráter conservador e mesmo reacionário, tanto em termos científicos (Agassiz era criacionista e principal opositor do darwinismo nos EUA) quanto em termos do pensamento racial-político da expedição (Agassiz era o principal defensor do poligenismo nos EUA, era ligado aos pensadores racialistas do sul norte-americano pré-guerra civil e foi um dos maiores defensores da idéia do hibridismo, de que o “mulatismo” ou a miscigenação era nefasta e deveria ser evitada a todo o custo).
A pesquisadora pondera que o perfil da expedição não se harmonizava com a figura de James, fundador do Pragmatismo, defensor do relativismo e, mais tarde, militante antiimperialista. “Resolvi iniciar uma busca dos papéis de James e acabei localizando séries de cartas, diários, desenhos e outros materiais no Houghton Library da própria Harvard. Como James foi professor desta universidade por toda a vida, seus papéis, assim como os de sua família, estão neste arquivo. A maior parte dos papéis de James já foi publicada em suas obras completas ou correspondências anotadas. No entanto, o diário do Brasil, embora muito citado por biógrafos, ainda estava inédito.”
O que chamou a atenção da pesquisadora nos papéis brasileiros de James, segundo ela conta, foi o tom muito diferenciado de suas observações (em contraste com os outros viajantes que passaram pelo Brasil naquele período). A percepção de James do mundo social do Brasil da época, sobretudo da Amazônia, porção da viagem que mais o agradou, mostram um James capaz de empatizar com uma população não-branca (índia, mestiça ou afrodescendente), achando nos modos de viver destas pessoas uma organicidade, racionalidade e códigos de conduta ética, moral, padrões de vida, códigos culturais. Isso tudo em descompasso com outros viajantes - como do próprio Agassiz ou sua mulher Elizabeth, autora do livro oficial da viagem, A Journey in Brazil - que eram escritos em tom pitoresco ou depreciativo. A comparação de ambas as viagens, a do casal Agassiz e a de James, é extensamente discutida no ensaio inicial ao conjunto de papéis.
“Certamente, a leitura do material que apresentamos virá confirmar esta perspectiva. Afinal de contas, por entre as dores e privações de uma viagem aos trópicos nos anos de 1860, residem nos papéis de James os traços de uma primeira descoberta do Outro, a quem James, não sem esforço, amigavelmente apreciou”, assinala a autora.
Em trecho do seu ensaio, Maria Helena aborda o fato de que, historicamente, a viagem de James tinha sido vista com pouco caso pela comunidade científica, encarada como “um não-evento” - com exceção apenas de um momento, um depoimento no qual James fala de sua inadequação às tarefas naturalistas, o que teria colaborado para que se dedicasse à filosofia. Esse é o testemunho que é levado em conta: “Tenho agora certeza de que meu forte não é participar de expedições de exploração. Eu não possuo uma ânsia interna me empurrando nesta direção, como tenho em relação às diversas linhas especulativas. Sinto-me agora convencido para sempre que fui talhado antes para uma vida especulativa do que para uma vida ativa - & eu estou falando apenas em termos das minhas qualidades, pois em termos de quantidade, me convenci há algum tempo & me reconciliei com a noção de que sou um dos mais leves dos pesos-pena. Bem, por que não me reconciliar com minhas deficiências?”
O livro sobre William James está despertando grande interesse na comunidade científica dos Estados Unidos. Maria Helena Machado, no entanto, não vai parar por aqui. Está preparando uma exposição fotográfica que trará ao Brasil uma coleção inédita da Expedição Thayer. Louis Agassiz mandou produzir a documentação visual em busca de demonstrar a “degeneração das raças brasileiras”, devido ao grande números de africanos, afrodescendentes, indígenas e, sobretudo, mestiços aqui existentes. A teoria de Agassiz era principalmente contrária à miscigenação.
A coleção fotográfica da Expedição Thayer é quase totalmente desconhecida, exceto por uma ou outra reprodução, e está sendo resgatada em colaboração com o historiador John Monteiro e com suporte do Peabody Museum e do David Rockefeller Center for Latin America Studies (DRCLAS). O projeto inclui a organização e catálogo da coleção fotográfica. Muitas das fotos foram vetadas para exposição pelo próprio Peabody Museum devido ao caráter racialista das imagens e ao fato de os fotografados aparecerem nus.
O projeto da autora, já em andamento, é a redação de um livro sobre a Expedição Thayer como um todo que constará dos seguintes temas: os viajantes norte-americanos na Amazônia da década de 1850 e pressão norte-americana para abrir a navegação do Amazonas, estimulando a colonização desta por escravistas norte-americanos do sul pré-guerra civil, com Louis Agassiz, Elizabeth Agassiz, William James, Tavares Bastos e sua adesão aos projetos norte-americanos de desenvolvimento da Amazônia.
“Acrescento que Charles Hartt, embora estivesse vinculado à Expedição Thayer, realizou uma rota diferente da de Agassiz e James e, portanto, eles quase não conviveram. Já Burkhardt participou da mesma rota que Agassiz e James, mas voltou aos EUA logo pois, devido à sua idade avançada e a doenças contraídas no Brasil, sua saúde se deteriorou rapidamente.”
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