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Sábado, 4 novembro de 2006   edições anteriores
CADERNO 2
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  'Eu fui salazarista'

Em ensaio autobiográfico, o escritor português Saramago, Nobel de 1998, assume ter pertencido à Mocidade Portuguesa que apoiou Salazar

Antonio Gonçalves Filho

A aldeia chama-se Azinhaga, mas nada ficou dela além do escritor português que lá nasceu, José Saramago, prêmio Nobel de Literatura de 1998, que comemora seus 84 anos no próximo dia 16 com o lançamento de As Pequenas Memórias (Companhia das Letras, 138 págs., ainda sem preço definido), pequeno ensaio autobiográfico em que revela ter pertencido, aos 14 anos, à Mocidade Portuguesa, ou seja, à juventude salazarista que apoiou o ditador português. Solidário com outro Nobel, o alemão Günter Grass, que confessou, na autobiografia Beim Hauten der Zwiebel (Descascando a Cebola), ter pertencido à Juventude Hitlerista, Saramago concedeu, por correio eletrônico, uma entrevista ao Estado, em que explica sua adesão compulsória à Mocidade Portuguesa, que apoiava Salazar.

O episódio está descrito na página 131 da pequena autobiografia, que conta a infância e juventude de Saramago. Em 1936, quando começava a Guerra Civil Espanhola, ele, jovem estudante de uma escola industrial, leu nos jornais sobre o conflito, acompanhou o desenrolar dos combates e percebeu que estava sendo ludibriado pelos militares reformados que censuravam a imprensa. Essa foi a razão por que, mandado pelos colegas ao Liceu de Camões para apanhar sua farda verde e castanha da Mocidade Portuguesa, deu um jeito de ficar no fim da fila até que se esgotasse o estoque das malditos barretes e calções de Salazar.

Na entrevista de Saramago, nesta edição, o escritor fala ainda da adaptação de seu Ensaio sobre a Cegueira pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles, o aclamado diretor de Cidade de Deus. Espera dele 'que consiga dizer com mais força' o que tentou dizer no livro, ou seja, 'que há demasiado absurdo no modo como a humanidade está vivendo'.

O politizado Saramago também fala de seu amigo Lula, reeleito presidente. Diz que exige muito mais dele neste segundo mandato, aconselhando que abra os olhos, 'porque era preciso tê-los fechados para não ver o que se passava no PT'.

   


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