estadao.com.br Estadao Jornal da Tarde Agencia Estado Eldorado AM Eldorado FM iLocal ZAP
   

Julio Mesquita
(1891-1927)
DIRETOR:
Ruy Mesquita

 
 
PARTICIPAÇÃO
ESPECIAIS
MERCADOS/FUNDOS
 
 
  
 
      Busca local   
Domingo, 5 novembro de 2006   edições anteriores
CADERNO 2
 ÍNDICE GERAL | ÍNDICE DA EDITORIA | ANTERIOR | PRÓXIMA
  Um Machado ainda oculto

Em seu novo livro de ensaios, o inglês John Gledson toca em pontos nevrálgicos que a crítica brasileira preferiu evitar, como a sexualidade na obra do escritor

Antonio Gonçalves Filho

Escritos ao longo dos últimos 20 anos, os ensaios que compõem o livro Por um Novo Machado de Assis, do professor inglês de literatura John Gledson, não recusam o diálogo com críticos e ensaístas brasileiros que analisaram a obra literária do nosso mais reconhecido escritor. No entanto, abrem-se para uma discussão sobre aspectos pouco explorados na literatura de Machado, especialmente a sexualidade e seu posicionamento ideológico, diverso do jacobinismo de seus contemporâneos. Gledson, doutor em literatura comparada pela Universidade de Princeton, concedeu por correio eletrônico uma entrevista exclusiva ao Estado, em que fala desses e outros temas.

Nos últimos 20 anos o senhor vem revelando aos leitores um novo e diferente Machado, escancarando, por exemplo, a sexualidade escamoteada em sua literatura. Por que os críticos brasileiros não tocam no assunto? O senhor considera a crítica literária brasileira conservadora?

Acho que, no caso específico da sexualidade, há uma combinação de dois ou mais fatores. Uma parte da crítica brasileira pode talvez ser chamada de “conservadora” - veja a mistificação que Raymundo Magalhães Júnior perante a menção do estupro homossexual em Casa Velha (mas ele ao menos teve a honestidade de admitir essa mistificação). Mais importante, e mais interessante, talvez seja a própria posição de Machado perante o sexo, e as suas conseqüências para o leitor. Não esqueçamos que na época a sexualidade andava solta, aberta, nos romances naturalistas franceses e brasileiros. Há um sentido em que a atitude de Machado perante essas questões seja mais realista - o sexo é uma coisa (e na época vitoriana ainda mais) ao mesmo tempo central e escamoteado nas nossas vidas cotidianas. Não era assunto que se pudesse tratar facilmente em público. O sexo na ficção machadiana reconhece essa realidade, e quando fala, fala encobertamente - isto é, por razões realistas e “diplomáticas”, digamos. O curioso também (em contraste com romances naturalistas como A Carne ou Bom Crioulo, mais “exóticos” nesse sentido ) é que Machado fala do nosso sexo de cada dia, coisas como a masturbação (Dom Casmurro, cap. 61), a conexão entre as necessidades emocional e sexual (Singular Ocorrência), uma pitada de sadomasoquismo para dar variedade ao casamento (Quincas Borba, cap. 71), etc. O resultado, algo paradoxal, é que sendo ao mesmo tempo um sexo corriqueiro, que faz parte da nossa vida cotidiana, e não sendo tratado como uma coisa à parte, o leitor (e os críticos) nem notam. Este fenômeno do óbvio que não se nota repete-se com muitos outros aspectos da ficção de Machado, faz parte integrante da sua ironia, e tem tido um efeito considerável na crítica (que às vezes não entende a ironia).

O senhor define a biografia de Jean-Michel Massa, A Juventude de Machado de Assis, de 1971, como a melhor escrita até hoje. Em que Massa se diferencia dos outros biógrafos do escritor?

Para responder a esta pergunta, reli rapidamente a introdução ao livro de Massa, e confesso que fiquei pasmo, sobretudo diante da franqueza dele. Massa fala, nessa introdução, das enormes dificuldades em termos de pesquisa que ele teve de enfrentar, e que o fizeram abandonar o projeto de escrever uma biografia total (parou em 1870, pouco antes de Machado publicar seu primeiro romance); da ingenuidade da crítica, na sua imensa maioria brasileira; dos mitos e lugares-comuns de todo tipo que circundam a vida do autor; das conexões ilegítimas que se fazem entre vida e obra, etc., etc. Escrever uma biografia de Machado é muito diferente que escrever sobre Jane Austen, Henry James, Flaubert ou Dostoievski, todos autores que tiveram biografias a anos-luz de qualquer versão da vida de Machado - sei disso, porque sou leitor assíduo delas. Perguntava-me o tempo todo - até que ponto as coisas mudaram? Não sejamos pessimistas demais - com o projeto Pró-Memória da Biblioteca Nacional, o acesso aos jornais da época melhorou, e muito; a própria geração de Massa, de escritores e pesquisadores brasileiros, mudou o panorama (sobretudo não nos esqueçamos de José Galante de Sousa, autor da Bibliografia de Machado de Assis, que o próprio Massa chama de “Bíblia dos especialistas de Machado de Assis”). Também a crítica se fez bem menos ingênua - pensemos só nas aportações de Roberto Schwarz, outras análises da obra que vão descobrindo as suas estruturas, motivações e condicionamentos fundamentais. Nossa visão da história do Brasil no período mudou, há muitos livros excelentes sobre o século 19 de que Massa não beneficiou. O panorama mudou muito. Mas, respondendo diretamente à sua pergunta, A Juventude de Machado de Assis se diferencia das outras biografias - inclusive da de Raymundo Magalhães Júnior, em quatro volumes, que lhe é posterior - pela combinação de pesquisa teimosa, ceticismo, e nítida divisão entre o homem e a obra. Sem dúvida as coisas melhoraram desde 1971, mas em termos de pesquisa sobretudo, de atenção às obras menores, de edição inclusive das obras (verdadeiramente) completas, há muito caminho a andar.

O senhor reconhece que Machado é um escritor de estatura internacional, mas que é difícil justificar isso a um leitor estrangeiro. Por que o mundo se curva a Proust e a Joyce, e não a Machado? Problemas de tradução ou de interpretação?

Andei pensando neste problema ao escrever um ensaio sobre a tradução de Machado para um concurso, e ao dar aula na UFSC em Florianópolis sobre tradução no ano passado. Há muitos fatores, e a tradução faz parte, sem dúvida - falando só do inglês, há ao menos duas traduções vergonhosas, uma de Dom Casmurro (que omite 8 ou 9 capítulos), e outra, mais recente, de Memórias Póstumas de Brás Cubas, pelo famoso tradutor Gregory Rabassa, que cochilou em grande estilo. Mas as traduções dos anos 50, as primeiras, são boas, melhoráveis sem dúvida, mas boas. Não sei até que ponto a interpretação afeta a divulgação do autor - seria legal pensar que a publicação em tradução inglesa do livro de Roberto Schwarz sobre Brás Cubas afetasse, e pode ser que afete, mas a longo prazo. Para simplificar, podemos comparar Machado, não com escritores do século 20, mas com os russos contemporâneos dele. Esses escritores também vinham da periferia do mundo cultural da época, mas tiveram enorme impacto na civilização ocidental - Gogol, Turgueniev, Tolstoi, Dostoievski, Chekhov... - um dos segredos pode ser justamente o fato de serem muitos, e de Machado ser um só. Os russos se entreiluminam, podemos dizer, e o leitor pouco a pouco vai entrando nesse mundo social e político (a servidão, a burocracia, o regime autoritário...) e no âmbito cultural, de ideologias como o eslavofilismo, o niilismo, etc. Todos entraram em conjunto, vamos dizer, e um escritor reduzia a estranheza do outro. Machado não só está praticamente sozinho - nem na América Latina há nada parecido -, ele é encoberto, esconde as coisas de um jeito necessário, constitutivo podemos dizer, à ficção dele, e que dificulta a sua abordagem.

   


    Links Patrocinados
  Estadao.com.br | O Estado de S.Paulo | Jornal da Tarde | Agência Estado | Radio Eldorado | Listas OESP
  Copyright © Grupo Estado. Todos os direitos reservados.