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Julio Mesquita
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Domingo, 12 novembro de 2006   edições anteriores
ECONOMIA & NEGÓCIOS
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  Classe média vive crise de renda, de empregos e de perspectivas

Segmento é responsável por 50% do PIB nacional, paga cada vez mais tributos e recebe pouco em troca

Fernando Dantas

A classe média perdeu mobilidade social, paga a maior parte dos impostos e gasta cada vez mais com serviços que, teoricamente, o Estado deveria fornecer. O resultado dessa conjunção de fatores é que esse segmento da população, que na definição convencional engloba as classes A e B, excluindo os mais ricos, é hoje o mais insatisfeito da pirâmide social brasileira. Além de se ver sobretaxada e excluída das prioridades do Estado, a classe média é particularmente sensível aos escândalos de corrupção que campearam tanto no Executivo quanto no Legislativo nos últimos anos - e com particular intensidade no governo Lula.

Segundo um trabalho de janeiro de 2006 dos economistas Claudio Dedecca e Eliane Rosandiski, da Universidade de Campinas, 86,1% do aumento dos empregos com carteira assinada entre 2002 e 2004 ocorreu na faixa entre um e dois salários mínimos. Na faixa de dez ou mais salários mínimos, onde se situa parte considerável dos integrantes da classe média, houve um recuo de 10,6% nos postos de trabalho com carteira assinada naquele período. 'Hoje, o filho da classe média não consegue emprego para reproduzir o mesmo padrão dos pais', diz Márcio Pochman, também da Universidade de Campinas.

Mesmo representando uma parcela relativamente modesta da população, inferior a 20%, a classe média, na definição tradicional, é um segmento de grande importância sócio-econômica. Ela corresponde a praticamente toda a parcela mais bem educada da população, ocupa a maioria dos postos de trabalho de maior agregação de valor e gera mais de 50% da renda nacional. Obviamente, a classe média está no coração do sistema capitalista brasileiro, e sua insatisfação e apatia não contribuem em nada para a tão sonhada aceleração do crescimento econômico.

Alguns economistas apontam que a classe média brasileira, em termos estatísticos, seria a classe C, pessoas que tipicamente têm uma renda familiar total de pouco mais de R$ 1.000,00 e representam de 30% a 35% da população . 'A classe C é onde o consumo mais cresce', diz a socióloga Fátima Pacheco Jordão. Mas é na classe média no sentido tradicional - isto é, com padrões de consumo próximos ao mesmo segmento nas economias capitalistas mais avançadas - que se encontra o grande foco de insatisfação.

Em termos de renda per capita, os 20% mais ricos no Brasil tiveram uma queda real de 0,5% entre 2001 e 2005. Essa camada, excluindo a extremidade mais rica, corresponde exatamente à definição convencional da classe média. A combinação de economia estagnada, altos impostos e serviços públicos de baixa qualidade é um forte desestímulo à classe média, especialmente para os jovens que estão iniciando a vida produtiva. Pochman nota que de 140 mil a 160 mil jovens de boa formação educacional deixam o Brasil por ano em busca de melhores oportunidades profissionais no exterior.

Em relação aos impostos, levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT) mostra que a classe média gasta 42,6% da sua renda bruta com tributos, mais do que os pobres e os ricos, e ainda deixa outros 31% em despesas que são tipicamente serviços gratuitos do Estado, como educação, saúde, segurança, previdência e pedágios.

Segundo especialistas, as perspectivas da classe média não são mais animadoras do que a sua situação presente. Ricardo Ismael, cientista político da PUC-Rio, nota que o modelo de ajuste do Estado adotado no Brasil desde o governo Fernando Henrique Cardoso é altamente prejudicial à classe média. De um lado, a carga tributária vem crescendo incessantemente, saindo de 25% do PIB em meados da década de 90 para os atuais 38%. A classe média, naturalmente, é a que mais contribui para pagar essa conta.

Por outro lado, como nota Ismael, 'há uma tendência, que vem desde o governo FHC, de que os gastos sociais sejam mais focalizados e que a classe média seja empurrada para fora do sistema de proteção social'. Em outras palavras, a classe média é cada vez mais taxada, mas recebe cada vez menos serviços de volta do Estado.

ELEIÇÕES

Segundo uma pesquisa de intenção de votos do Ibope às vésperas do segundo turno - e cujos resultados foram quase idênticos aos das eleições reais em todos os parâmetros em que isso pode ser confirmado -, o candidato tucano Geraldo Alckmin teve uma pequena vantagem na faixa do eleitorado dos 18% mais ricos, com renda familiar total acima de cinco salários mínimos, ou R$ 1.750. Nesse segmento, a pesquisa indicou 52,3% de votos válidos para Alckmin e 47,7% para Lula. A vantagem tucana cresce muito para 63%, Alckmin, a 37%, Lula, quando se toma a faixa de renda familiar acima de dez salários mínimos, ou R$ 3,5 mil, que corresponde a 6% do eleitorado.

Esses números indicam que, no mínimo, um pouco mais da metade da classe média votou contra o governo, e essa proporção aumenta muito à medida que se sobe na escala do rendimento familiar. Para Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi, instituto de pesquisa de opinião, a insatisfação da classe média 'não é um fenômeno do governo Lula, e tem a ver com mudanças de médio e longo prazo em áreas como mercado de trabalho e serviço público'.

Ele acha, porém, que reconciliar a classe média é um dos desafios do presidente reeleito em outubro: 'Durante a campanha, o candidato Lula fez uma aposta no discurso fortemente dirigido aos eleitores de mais baixa renda ou mais ideológicos; a classe média não foi indispensável para ganhar a eleição, mas pode ser indispensável para governar'.

   


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