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  Chávez propõe 'enterrar' Mercosul

Presidente venezuelano critica demora de integração sul-americana, sugerindo 'viagra político' para acelerá-la; Lula, irritado, reage

Denise Chrispim Marin

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, conseguiu mais uma vez irritar seu companheiro Luiz Inácio Lula da Silva ao quase pôr a perder o projeto do brasileiro para a integração da América do Sul. Ao final da 2ª Reunião de Cúpula da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa), Chávez declarou que a integração precisava de um 'viagra político' e teimou para que seus colegas concordassem em 'enterrar' o Mercosul e a Comunidade Andina (CAN). Por fim, ameaçou não assinar o documento do encontro, a Declaração de Cochabamba, sob o pretexto de que criaria uma estrutura frouxa para a Casa - sigla que, para ele, 'não significa nada'.

Depois de quatro horas de debates, Chávez queria continuar a discussão, enquanto Lula tinha pressa em embarcar para São Paulo. O brasileiro conseguiu abortar o plano, ao propor que os debates sobre a estrutura da Casa sejam retomados no dia 18 de janeiro, na véspera da Reunião de Cúpula do Mercosul, no Rio de Janeiro. Mas Lula não deixou Chávez sem resposta.

'A Comunidade Andina não existe, nem tampouco o Mercosul. Mesmo que a convergência entre esses blocos fosse possível, seria a convergência de duas máquinas que não servem para nada. Enterremos os nossos mortos, irmãos! Precisamos de um viagra político para essa integração', bradou Chávez.

'O fato de querermos mais, em termos de integração, não nos obriga a negar os avanços que já conseguimos obter. É natural mostrarmos indignação com a demora (do processo de integração). Mas não aceito a negação do que estamos fazendo (com o Mercosul). Temos de sair dessa reunião apresentando uma cara política da integração', rebateu Lula.

GRUPO DE CHOQUE

O imbróglio repetiu a experiência que Lula havia vivido em setembro de 2005, quando organizou a 1ª Reunião de Cúpula da Casa, em Brasília. Nos instantes finais do encontro, Chávez recusou-se a assinar o documento porque não trazia uma estrutura, com objetivos claros. Com paciência, Lula o convenceu a aceitar a formação de uma Comissão de Reflexão para apresentar um projeto de conformação da Casa. Chávez, depois do pequeno show, assinou o documento.

Ontem, Chávez ameaçou jogar por terra o texto da Declaração de Cochabamba, que já havia sido concluído numa reunião de chanceleres da Casa, em Santiago (Chile), no dia 24. Sua atitude reabriu a discussão sobre a estrutura da Comunidade e impediu a criação da Comissão de Altos Representantes, que deveria coordenar o processo de integração e dedicar-se, em 2007, a elaborar o ato constitutivo da Casa - como o Tratado de Assunção, para o Mercosul.

Foi mantida apenas a criação de uma secretaria-executiva, que será provisoriamente sediada no Rio de Janeiro no ano que vem. Para ele, seria preciso 'vencer a inércia e designar um comando, que não é terrorista, mas é um grupo de choque' para a Casa e 'dar uma 'sacudida' na integração.

'O Chávez não respeita decisões de chanceleres. Só aquelas nas quais participa', queixou-se um diplomata do Mercosul.

Em uma clara disputa pela liderança do processo de integração sul-americano com Lula, Chávez atacou praticamente todos os pontos defendidos pela diplomacia brasileira. Afirmou que os trabalhos de Marco Aurélio Garcia, coordenador da Comissão de Reflexão e assessor internacional de Lula, não garantiram um modelo que permita rapidez à integração e, com ironia, tripudiou da sigla Casa, proposta por Amorim. O venezuelano deixou claro que preferia Unasur.

Chávez ainda se opôs claramente à implementação da Iniciativa de Integração de Infra-estrutura da América do Sul (IIRSA), um conjunto de obras consideradas fundamentais para a conexão física e energética do continente, que começou a ser organizado em 2002. 'Agora, tenho a companhia dos movimentos sociais contra essa lógica neocolonialista de servir aos interesses das plataformas de exportação', afirmou. 'Antes, eu era um crítico solitário.'

O presidente Lula não esqueceu esse comentário. Esperou sua vez e emendou que não negaria a IIRSA - um dos mecanismos que prometeu levar adiante em seu segundo mandato. 'Uma coisa não nega a outra.'

Os únicos pontos que uniram Lula a Chávez nos instantes críticos da cúpula foram os EUA e as desavenças com os governos que os antecederam. Chávez atacou as 'oligarquias apátridas que se ajoelharam nos últimos 200 anos ante ao império e que rechaçam seu projeto de criar a Petrosur (união das petroleiras sul-americanas)'.

Lula foi mais criativo. 'Há dez anos, na América do Sul, a questão era saber qual país era mais amigo dos EUA. Era saber se seria o (então presidente argentino Carlos) Menem ou o Fernando Henrique Cardoso quem iria ficar em Camp David e quem ia ter mais título de doutor honoris causa', arrematou, referindo-se à casa de campo dos presidentes americanos.

   


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