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PCC loteia áreas na Guarapiranga
Sérgio Duran
As marcas de bala na parede da sede do antigo São Paulo Ultraleve Clube denunciam qual é a lei do lugar - um braço da Represa Guarapiranga e resquícios de mata atlântica. Miami Paulista, Vila Gilda e Jardim Aracati, na periferia da periferia da capital, distrito do Jardim Ângela, são os bairros onde a pressão para invadir os poucos terrenos que restam fazem o local parecer cenário de faroeste.
O clube faliu há cerca de 15 anos, mas a pista é usada para aprendizes de piloto de helicóptero. O que os moradores vêem, no entanto, é um imenso terreno coberto de grama à margem da represa, vizinho da Prainha, onde a maioria se diverte no fim de semana. 'Aqui todo mundo anda armado. Invadem e, em dois, três dias, a casa está construída', conta o diretor do aeródromo, o piloto aposentado Nelson Otone Rodrigues, de 62 anos. Outros relatam histórias assustadoras de conflito pela terra, que, invadida, pode ser vendida por R$ 5 mil a R$ 20 mil.
Segundo os moradores, há partes da região onde só se entra com autorização do Primeiro Comando da Capital (PCC). Narram casos como o assalto a fiscais da Prefeitura e da Sabesp, e a história de um homem e seu filho que morreram queimados no porta-malas de um carro, e, depois, foram atirados no 'Poção' - parte mais funda daquela margem da represa, pois o pai 'não pagou a associação'. O caso foi registrado no 100º Distrito Policial como desaparecimento.
A prática na Vila Gilda repete o que ocorre na Guarapiranga, há pelo menos 30 anos. Os terrenos são invadidos com a anuência do proprietário, ou por um grileiro. Uma associação é montada - geralmente ligada a um deles - e cobra prestações dos invasores. Aterrar para construir na área da represa que abastece 3,7 milhões de paulistanos, de Santo Amaro, Campo Limpo, Morumbi e Butantã, custa de R$ 60 a R$ 200 mensais. A novidade é a entrada do PCC nas associações. 'Em alguns lugares são eles que cobram, sim', diz um morador que não quer ser identificado. 'Mas são justos na cobrança.'
O subprefeito de M'Boi Mirim, Lacir Baldusco, não confirma a violência. 'Se houve histórias assim, foi há muito tempo. Tenho três ações (de reintegração de posse) para cumprir. Não quero mexer com quem está quieto.' A visita da reportagem, porém, foi marcada por advertências de moradores e até de um policial. No primeiro semestre de 2006, uma pessoa morreu por semana na área do 100º DP.
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