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Julio Mesquita
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Sexta-feira, 11 maio de 2007   edições anteriores
CADERNO 2
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  'Mano Brown, de caso pensado, não provocaria tal cena'

Caetano Veloso fala sobre o incidente no show dos Racionais e sobre sua nova turnê, Cê, que reestréia hoje em São Paulo

Adriana Del Ré e Luiz Carlos Merten

O cantor e compositor Caetano Veloso e seu power trio, formado pelo guitarrista Pedro Sá, o baixista Ricardo Dias Gomes e o baterista Marcelo Callado, trazem consigo a turnê Cê, de hoje a domingo, no palco do Citibank Hall. Já testado em outros cantos, inclusive em São Paulo, o show chega por essas bandas com ares de oficial. Munido de sua pequena obra conceitual e outras cositas mas dos anos 70, Caetano aproveitou para falar com o Estado sobre seu espetáculo, Racionais MC's e cinema, outra de suas grandes paixões.

Você experimentou o show Cê no Sesc Pinheiros no fim do ano passado. De lá para esta estréia da turnê na cidade, o que foi repensado?
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Nem mexemos na estrutura do show. Desde o início, a gente gostou de como o show diz o que tem de dizer.

Como está sendo a experiência de tocar, ao vivo, com seu power trio?

Muito boa. Ter armado uma banda é mais importante do que ter feito um novo disco. Ou melhor: o próprio repertório do disco é interessante porque foi pensado para a criação de uma banda.

Qual sua opinião sobre o tumultuo no show dos Racionais MC's, na Virada Cultural?

Há muito tempo venho pensando em algumas contradições sérias que o rap tem de enfrentar. Já disse que acho Sobrevivendo no Inferno (dos Racionais) um marco na discografia brasileira de todos os tempos. Pessoalmente, tenho interesse no rap desde que assisti a Beat Street, nos anos 80. Mas, defrontado com a cultura da marra em lugares muito meus, como Santo Amaro e Guadalupe (bairro da zona norte do Rio onde passei um ano de minha adolescência) e vendo a tendência de parte da garotada desses lugares a imitar uma cultura do mundo dos chefetes do tráfico, decidi que precisava pensar com mais preocupação nos aspectos políticos do movimento hip-hop. Claro que os Racionais (ou MV Bill, ou Thaíde, ou D2) não fazem apologia do traficante ou do ladrão. E, com freqüência, se mostram como alternativa contra o crime. Mas eles são poetas. E nasceram e cresceram onde esses criminosos se formaram. Acompanharam de perto o drama do vizinho, do amigo, do irmão que caiu no crime. As estatísticas que mostram maioria de negros nesses bairros, a resultante atitude da polícia de dar tratamento preferencial a negros na hora da repressão, o conteúdo de ressentimento histórico das populações negras - tudo isso contribui para que os rappers tendam a enfatizar a responsabilidade da sociedade como um todo pela conduta dos infratores. A poesia deles - as roupas, as rimas, os gestos - foi desde cedo influenciada pelo imaginário gangsta-rap americano, que tem, além de um tom arrogante e autoglorificador, a bagagem do ódio racial explícito da sociedade norte-americana. Daí que alguns dos seus fãs possam querer mostrar o teatro da raiva e a polícia possa querer apontar incitação. Mas não creio que Mano Brown, de caso pensado, pudesse provocar uma cena ruim como aquela que paralisou a apresentação do grupo.

Por falar em Virada Cultural, em um país onde ingressos para shows, teatro, dança e cinema são, no geral, caros, qual sua opinião a respeito de eventos como foi a Virada, que ofereceu programação gratuita?

Dos shows que já fiz na minha vida, aquele de que me lembro como sendo o que mais me deu alegria estética e social foi o Circuladô, em Realengo, grátis. O show era sutil, intenso e rico, e o público era atento e quente: fazia silêncios profundos, cantava em uníssono afinado, aplaudia com entusiasmo e, sobretudo, inteligência. Saber que houve esses shows em praça pública em São Paulo me deu uma sensação boa. Já cantei na esquina da Ipiranga com a São João para uma multidão belíssima. Adoraria poder estar em Sampa nessa Virada.

Em junho, se comemora 40 anos de Sgt. Pepper, dos Beatles. Qual foi o impacto desse disco em sua carreira quando ele saiu?

Sgt. Pepper e o tropicalismo fazem exatos 40 anos este ano. Quando o disco saiu, Gil e eu já estávamos com as idéias desenvolvidas. Os Beatles estavam presentes em nós: Gil era louco pela gravação de Strawberry Fields Forever, que ele associava à Banda de Pífanos de Caruaru, e eu somava a Roberto Carlos, Chacrinha, Godard e Terra em Transe. Meu disco tropicalista (o primeiro álbum do movimento) foi gravado em 1967, já com a presença dos Beat Boys e, mais importante, dos Mutantes - além dos arranjos magníficos de Julio Medaglia. Gil já tinha se apresentado com os Mutantes, que, esses sim, conheciam os Beatles muito bem. Sgt. Pepper nos soou como uma confirmação de tudo quanto dizíamos uns aos outros (e tentamos dizer a terceiros). Quanto à capa de Tropicália, disco do ano seguinte, não vejo muita semelhança entre ela e a do disco dos Beatles. Eu nem gostava dela na época. Hoje, gosto, depois de vê-la tantas vezes repetida em exposições, em livros históricos e na imprensa internacional.

Sgt. Pepper e Tropicália são dois álbuns conceituais, bem como, de certa forma, Cê também é. Qual a importância (ou a graça) de se fazer um álbum conceitual hoje?

Em 70, John Lennon, saindo dos Beatles, exibia asco aos discos conceituais e se dizia sedento da cultura real dos singles. Ele queria mostrar que sua Come Together era melhor do que Abbey Road inteiro (acho que ele, praticamente, tinha razão). O que vemos hoje é uma realização do sonho de Lennon. Eu gosto de discos com cara de filme, com unidade, rimas internas, capa e encarte. Então, pra mim tem muita graça fazer um álbum com coerência interna. Mas as canções soltas têm outra vitalidade.

Está ocorrendo no Rio o evento Música em Cena, que traz ao Brasil grandes compositores para discutir a relação entre música e cinema. Você, que faz música para filmes, já homenageou Fellini e Nino Rota, já cantou Antonioni, como encara o tema? E o Ennio Morricone, que fez um concerto no Municipal, o que acha da parceria dele com Sergio Leone nos spaghetti westerns?

Conheci Morricone em Bari, no auditório Nino Rota. Assisti à sua palestra e depois jantamos juntos. Ele é um homem muito afável e todos sabem que ele é um compositor e regente muito capaz. No meu disco Cê, há uns sons em que a guitarra de Pedro Sá remete àqueles filmes de Leone. Lembro de ouvir John Zorn, Marc Ribot, Arto Lindsay, Peter Schere, Kassin, Milton Nascimento e David Byrne dizerem que acham Morricone genial. Morrisey o convidou para orquestrar uma faixa do seu disco. Nesse ambiente, eu me sinto um pouco fora da turma. Eu não era o maior fã dos western spaghetti. Apenas achava levemente legal seu aspecto trash e irônico. Mas justamente a música - aquelas ocarinas, aqueles assovios - me soava como que sem humor. Sei que Morricone inovou ao pôr guitarras em trilhas de filmes de caubói. Mas sempre me pareceu que ele se levava a sério demais. Ao ouvi-lo falar em Bari, a impressão se confirmou. Mas sou apaixonado por Nino Rota e Fellini. Não me sinto bem ao ler Morricone dizendo que Fellini não tinha gosto para música e que isso estragou Rota. Para ele, Rota, em vez de criar música inventiva, ficava repetindo temas populares napolitanos. Mas vejo mais ironia sutil no modo como Rota aborda temas mediterrâneos do que nas ocarinas de Morricone. Este salva só o que Rota fez para Casanova, porque tudo soa como um ensemble sofisticado imitando máquina de relojoaria. Mas o tema de Rocco e Seus Irmãos, de Rota sem Fellini, é profundo e pungente. E todo o Fellini/Rota - mesmo quando, em La Dolce Vita, Fellini usa quaisquer trechos de trilhas de Rota para quaisquer outros filmes seus - é mágico. Já o entusiasmo que Milton tem pela trilha de A Missão não me contagia. O que eu mais gosto (e aqui Morricone poderia dizer que só gosto de Rota porque só entendo música popular, no que ele possivelmente teria razão) é dos arranjos que ele fez para Amapola: simplesmente divinos.

2 Filhos de Francisco virou a maior bilheteria do cinema brasileiro da retomada. O que você acha que levou o filme a transpor a barreira entre o sertanejo e o público que não gosta desse gênero?

Acho 2 Filhos de Francisco um grande filme brasileiro. E os brasileiros o perceberam. Não creio que a questão fosse conquistar o público sofisticado para o mundo da música sertaneja. Foi mais conquistar o público de música sertaneja para o cinema. O filme era simplesmente irresistível, como filme, para 90% dos espectadores sofisticados que o viram antes do lançamento. A maioria dos que ouvem Zezé e Luciano não vai ao cinema. No fim, brasileiros de todos os tipos choravam e riam diante do filme.

Outro grande sucesso é Lisbela e o Prisioneiro e você deu nobreza a outra música brega, Você não me Ensinou a te Esquecer. Isso é preconceito de crítica, de um público que se acha mais erudito?

Outro dia li um crítico de cinema, por causa de uma reexibição de Lisbela na TV, dizendo que o filme era ruim, falado com o sotaque nordestino que só existe na TV Globo. Ele está totalmente errado. Lisbela é falado como um filme deve ser: de modo claro, forte e estilizado na medida certa da comédia não-realista que ele é. Cantei Você não me Ensinou a te Esquecer porque João Falcão, o pernambucano que fez a trilha, me pediu. Não dei palpite nem no arranjo. Achei que ficou bem bonito no filme. Desde o tropicalismo que canto canções de que as pessoas se envergonham. Acho que esse assunto ainda se prende a um Brasil subdesenvolvido. Espero que a gente supere isso.

E você gosta desses filmes? Afinal, há muita diferença entre Fellini, Antonioni e Lisbela ou Francisco.

Bem, filmes são filmes. Acho que Fellini é um grande artista sentimental e popular. Isso não é coisa fácil. Você pode ser sentimental e popular mas não ser grande. Pode ser popular e grande sem ser sentimental. Mas ser as três coisas ao mesmo tempo é só para gênios como Chaplin ou Fellini. Ou para acidentes angelicais como 2 Filhos. Lisbela participa dessa qualidade. Antonioni não tem nada a ver com isso.

(SERVIÇO)
Caetano Veloso. Citibank Hall (1.950 lug.). Avenida Jamaris, 213, Moema, tel. 6846-6040.Hoje e amanhã, 22 horas; dom., 20 horas. R$ 60 a R$ 160

   


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