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Entrevista

Olgária Matos: professora titular aposentada de Filosofia da USP

Para Olgária, rearranjo promovido por Serra tende a vincular atividades das instituições aos interesses das empresas privadas

Simone Iwasso

A filósofa Olgária Matos, professora titular aposentada da Universidade de São Paulo (USP), fez parte de um abaixo-assinado que rejeita a desocupação da reitoria por meio da força policial. Ela defende livre acesso à sala de aula, mas diz que a contestação faz parte da “política universitária”, e diz temer interferência do governo e dos interesses de empresas na produção acadêmica.

Em sua análise, qual o problema com os decretos do governo?

É uma intromissão. A instituição tem uma dinâmica política, intelectual e econômica que não pode ser atropelada pelo Estado. O primeiro ponto é a forma, todo decreto é uma imposição arbitrária. A outra questão é o sentido hoje da ciência e tecnologia, que não são mais a superestrutura cultural da sociedade, como o marxismo colocava. Hoje eles são a infra-estrutura da sociedade, estão ligados ao acúmulo e à produção do capital. Ciência e tecnologia são peças produtivas, e, quando ordenadas de fora, há sempre o interesse econômico e político por trás.

Estaria aí a quebra da autonomia?

Se você quer mexer nisso, colocar as universidades sob uma secretaria, você indica que quer organizar de outra maneira a vida universitária. A médio ou longo prazo eu entendo que isso indica uma direção da pesquisa para o que a sociedade demanda, para o que dá mais lucro. Você terá de começar a prestar contas para essa secretaria dos dados, números, produtividade, dinheiro gasto, que até podem sofrer restrições. A universidade pode ser encaminhada segundo o sentido de torná-la mais produtiva, para o que pode trazer mais recursos, dar retorno mais rápido, e isso para empresas, para sociedades privadas, para agências financiadoras. Acontece que os critérios de excelência deles são diferentes dos critérios de excelência da universidade.

Ocupar a reitoria é uma maneira legítima de protestar contra isso?

Não vou me pronunciar sobre a ocupação da reitoria. Mas a idéia de contestação segue uma política universitária. O importante é garantir a não partidarização do movimento. Um instituto de pesquisa não pode estar ligado a nenhum partido. Os alunos não reconheceram o diretório central (dos estudantes, DCE) como liderança e os alunos que estão lá e que são de partidos não se manifestam como tais.

Os estudantes estão sendo democráticos, mesmo quando fecham as portas de unidades colocando as carteiras para fora?

Não sei como as coisas se passam em cada instituto. Mas não se deve fechar a porta. A sala de aula é o único lugar claramente democrático, lugar que deve ser respeitado.

   


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