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Domingo, 1 julho de 2007   edições anteriores
CADERNO 2
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  O que existe de novo no front?

Estréias em romance revelam uma produção de conservadorismo pop e realismo marqueteiro

Alcir Pécora

Como tem saído muita matéria entusiasmada sobre novos autores nos jornais, tratei de ler alguns livros dentre os mais citados. Começo por Fugalaça, de Mayra Dias Gomes (Record, 2007). Mesmo quem tenha passado em branco pelo sobrenome da autora, fica logo sabendo que se trata do romance de estréia da filha do dramaturgo Dias Gomes, escrito aos 17 anos. Impressionante? Nem tanto. Não há muita coisa no livro que a autora possa chamar de seu. Tudo nele está organizado como uma macaqueação do gênero de diário de bad girl rica e entediada, que se envolve precocemente com sex, drugs and rock-n'-roll. O mesmo gênero de subliteratura teen que já rendeu best sellers na Itália, com 100 Escovadas antes de Dormir, e na França, com Hell. Mayra é carioca, mas deslumbrada para ser moderna em SP, a 'Nova York no Brasil' - só fiquei sem entender onde estavam as 'lojas maravilhosas e caríssimas como as da Avenida Paulista'. Estaria ela falando do Banco Safra, do Bradesco, da Fiesp? A protagonista do romance autobiográfico tem alguns casos frenéticos, com roqueiros emo, mas depois de levá-los para a cama o que persiste é a tristeza e a solidão mais derramada. A narrativa é direta, em primeira pessoa, bastante fluente. O que há mais para se dizer de um romance como esse? Que para fãs do gênero, o melhor é tornar-se sócio de TV a cabo, e assistir a filmes na linha de Garotas sem Rumo, aos 13, ou mesmo de Kids e Ken Park? Não será nada tão cru quanto a leitura de Sarah, de J.T. Leroy, mas responderá bem à demanda da fórmula moralista da garota rebelde, na verdade, sensível e genial, em busca de alguém capaz de salvá-la de seu comportamento autodestrutivo. Esse gênero de narrativa participa do mesmo filão em que vicejam os reality shows: dividem o mesmo nicho de mercado onde têm ponto os relatos de prostitutas, encabeçados no Brasil pelo livro da célebre Bruna Surfistinha.

O segundo livro de minha lista é A Inevitável História de Letícia Diniz (Nova Fronteira, 2006), de Marcelo Pedreira. Também romance de estréia, trata-se da história de um travesti de apenas 16 anos, que chega de Porto Velho, cheio de ilusões de se tornar um grande artista no Rio de Janeiro, as quais logo se dissipam nas misérias da prostituição. O tema pareceu batido ao leitor? Lembrou-se, acaso, de filmes apelativos que fingem fazer crônica realista? No limite, pode-se recuar mais e reconhecer na sucessão de clichês da narrativa o velho modelo do romance romântico, no qual a personagem de natureza boa e sonhadora sucumbe face ao meio vicioso. Mas é pior: o livro conjuga naturalismo apelativo com moralismo ambíguo e desonesto, fingindo condenar a miséria que exibe em detalhes para atrair as piores inclinações que supõe no leitor. Não cabe engolir a pílula da representação do real, pois há apenas reposição dos lugares comuns de gênero. A lição edificante de desengano da vida marginal apenas reforça clichês, pois não há densidade analítica ou sinceridade afetiva, mas simples e vulgar crença no apelo comercial do mundo cão. A 'inevitável história' que o livro pretende relatar é, com efeito, apenas a inevitabilidade da história como clichê.

Passo à leitura de Gran Cabaret Demenzial (Cosac Naify, 2007), de Verônica Stigger. Distingue-se dos demais pela edição em cores, pela tipologia variada, pelas ilustrações e ainda pela diagramação que simula mais de um livro dentro do livro. Alterna poemas, contos e mesmo um sketch de peça teatral. O primeiro conto é o mais interessante do livro, no qual uma cena de banalidade domingueira na cidade é desconstruída por meio de uma sucessão de atos de automutilação e de informações tão precisas quanto inúteis, as quais, por isso mesmo, produzem efeito de aleatoriedade e nonsense. Os poemas são baseados em trocadilhos e espertezas típicas do poema-piada, que foi divertido no modernismo e que virou sinônimo de poesia pop na mão prolífica de Leminski. Por exemplo, poemas que descobrem conotação sexual-escatológica em placas de trânsito, tipo 'B. Funda', 'Cem. Perus' ou 'Recto. Dos Humildes'. O livro ostenta humor negro; pretende-se desbocado. Aspira a inteligência aguda. Não vai além da amplificação escatológica de situações banais, sem que a amplificação chegue a constituir questão, mais do que figura, ou a escatologia mais do que referência afetada. Evidencia o procedimento a narrativa de um casal de estudantes morando em cubículos, cuja situação vai sendo amplificada até a literalização escatológica do espaço mínimo. Por vezes, o humor negro e o nonsense ganham feições denuncista, como no caso do casamento inter-racial no qual a crueldade dos pais do noivo branco é castigada, assim como a beleza da noiva negra é reconhecida. Quer dizer, o humor negro se contém nos limites do admissível genérico que compõe o cenário pós-moderno. O mundo dos pretos feios e das crueldades sem castigo passa ao largo. O anúncio pornográfico, espacejado como poesia, retoma brincadeiras dadá. A pequena peça teatral que trata de um jovem casal acidentado reafirma o mesmo gosto do primeiro conto: a banalidade desconstruída por escatologia, nonsense e besteirol. Acontece que no Brasil já existe uma Hilda Hilst. É bobagem imitá-la. Mesmo porque, excessiva como é, não admite imitações que prestem: imitam-se os sestros, e deixa-se passar o essencial, que é a obsessão da franqueza e da verdade.

O quarto livro em minha lista é Mãos de Cavalo (SP, Companhia das Letras), de Daniel Galera. A narrativa se constrói à maneira do romance realista típico, com narrador onisciente de terceira pessoa. Os capítulos alternam as façanhas ciclísticas de um menino que cresce num loteamento da periferia de Porto Alegre e os planos de escalada de fim de semana de um cirurgião plástico de 30 anos, casado, estável financeiramente, mas insatisfeito com o rumo de sua vida. Ao final, previsivelmente, as duas narrativas se encaixam quando se revela que o menino é o mesmo cirurgião 15 anos antes. Mistura de romance de formação e romance psicológico, o foco das experiências juvenis se formula em torno de um núcleo traumático que permanece irrevelado e irresolvido em sua vida presente, até os capítulos finais, de tom redentor, que lhe dão a chance de purgar a culpa que traz da infância. Tudo isso é bem banal. Podemos nos lembrar facilmente de histórias assim. No entanto, o romance é desenvolvido com habilidade narrativa, sobretudo quando as ações se referem corridas de bicicleta pelas vielas do bairro, com os riscos iminentes de um acidente fatal. Se a opção de Galera fosse por escrever não um romance, mas um conto constituído pelo primeiro episódio do livro, teríamos de saudar um texto muito melhor do que o livro acabou se tornando. A enorme habilidade narrativa de ambiente especializado, construída em torno aos equipamentos e manejos da bike, lembra narrativas clássicas de Rubem Fonseca, como A Força Humana, toda composta à roda dos aparelhos das academias de musculação. Ao fim do quarto livro empilhado em minha mesa, achara alguém do ramo.

O romance seguinte é Toda Terça (Companhia das Letras, 2007), de Carola Saavedra. O texto também alterna diferentes narrações, como ocorre com Mãos de Cavalo, mas desta vez são três narradores em primeira pessoa, conduzindo diferentes fluxos de consciência: Laura, em suas sessões de análise, às terças-feiras, aplicada em desenvolver táticas para desestabilizar a escuta do analista estereotipado; Javier, imigrante latino-americano vivendo em Frankfurt ao sabor das circunstâncias, que acaba tendo um caso com Ulrique, antropóloga adepta de todo clichês do politicamente correto; e, enfim, Camilla, brasileira, que divide o apartamento com Ulrique e se apaixona por Javier. Ao final, quando Camilla retorna ao Brasil, articula-se um enredo um tanto tardio entre os três narradores, a redimensionar as seqüências em fluxo. O ponto mais alto dessas seqüências está, entretanto, nelas próprias, no efeito produzido pelo arrastar das frases inconclusivas, forçadas, desnecessárias, que as personagens trocam entre si. A falta de qualquer vontade firme, no tédio prolongado de Javier, e a irritação que percorre o amor de transferência de Laura face a Otávio, o psicanalista, produzem diálogos descompassados e divertidos. Todavia, entre os fluxos de Javier e Laura, o de Camilla é redundante em relação ao do primeiro, ou tardio demais em relação ao conjunto do romance. Isto faz com que a narração do desfecho apareça como deus ex-machina, ou então como figura retórica de encerramento, não de todo ajustada. Entre as qualidades do romance está ainda a aplicação convincente da ironia, as minuciosas táticas dos combates imaginários, que, nisso, lembram procedimentos aplicados magistralmente por Sérgio Sant'Anna (por exemplo, em O Albergue), que, nesse caso, não por acaso, faz a orelha do livro.

O último texto que leio é Mastigando Humanos (Nova Fronteira, 2006), de Santiago Nazarian. Trata-se de um romance de viés alegórico, a propósito de animais que vivem num esgoto recebendo todo tipo de lixo urbano e de descarga química industrial, ensaiando diferentes formas de organização social. Uma delas, a anarquia ociosa, é reclamada pelo jacaré protagonista do romance, em oposição à burocracia centralizadora, pretendida pela rataria. Se fosse mais contido estilisticamente, ou mais eficiente em termos alegóricos, poderia ter parentesco com O Arquipélago, de Diogo Mainardi. Mas fica aquém. O romance, pretensamente 'psicodélico', requenta personagens e situações do underground dos quadrinhos dos anos 60, que já teve manifestação mais interessante, no Brasil, com o Clara Crocodilo, de Arrigo Barnabé. O narrador concentra as ações derivativas do subterrâneo em seus aspectos escandalosos, tratados com humor negro, mas nem o escândalo é tanto, nem o humor realmente engraçado. Há algum nonsense, mas preguiçoso, sem a exploração de agudezas verbais e conceituais que se esperaria dele. Detém-se no comentário vizinho ao besteirol e à cultura pop. O mais curioso do livro é a orelha. Flagra uma pose do autor, deixando sair da boca alguma gosma. A julgar pelo registro juvenil do livro, não deve ser mais que iogurte de morango.

De tudo o que concluir? Que não senti especialmente perdida a semana de leitura, graças ao capítulo inicial de Mãos de Cavalo e aos fluxos provocativos de Toda Terça? Imagino, num relance pessimista, que não seja coincidência que Carola Saavedra seja a única não brasileira entre os autores. De resto, conservadorismo pop, realismo marqueteiro e quase nenhuma promessa é a impressão que fica nas minhas retinas fatigadas. Mas sempre há chance de que a fadiga preceda a impressão.

Alcir Pécora é professor livre-docente de teoria e crítica literária e atual diretor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp

   


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