estadao.com.br Estadao Jornal da Tarde Agencia Estado Eldorado AM Eldorado FM iLocal ZAP
   

Julio Mesquita
(1891-1927)
DIRETOR:
Ruy Mesquita

 
 
PARTICIPAÇÃO
ESPECIAIS
MERCADOS/FUNDOS
 
 
  
 
      Busca local   
Segunda-feira, 30 julho de 2007   edições anteriores
CADERNO 2
 ÍNDICE GERAL | ÍNDICE DA EDITORIA | ANTERIOR | PRÓXIMA
  Os best sellers agora latem e até relincham

Nos últimos dois anos, livros sobre animais de estimação, tanto em ficção como não-ficção, têm vendido como água

Dwight Garner

Quatro pernas bom, duas pernas ruim. Esse é um dos slogans retumbantes do romance Animal Farm (A Fazenda dos Animais ou A Revolução dos Bichos nas traduções brasileiras), de George Orwell, de 1945. Também parece, cada vez mais, o lema que pode ser colado à testa de executivos de editoras em Manhattan. Os livros sobre animais estão vendendo como água. Os best-sellers mais surpreendentes dos últimos dois anos - tanto em ficção como não-ficção - foram, de fato, sobre animais adoráveis. Um é o elegíaco Water for Elephants, de Sara Gruen, romance sobre um circo na época da Depressão e uma elefanta de nome Rosie. O outro é Marley & Me, memória em forma de sitcom de John Grogan sobre a vida com um labrador retriever maníaco. Os dois livros saíram não se sabe de onde. Juntos, ficaram quase cem semanas nas listas de best-sellers do NYT. E não ficaram sozinhos. O instrutivo Animals in Translation, de Temple Grandin, entrou na lista de best-sellers recentemente, assim como o livro de memórias de Jon Katz, Dog Days, e o manual de treinamento de macho alfa Cesar's Way, de Cesar Millan. Dog Years, de Mark Doty, uma recordação dolorosa de um amor perdido e cães perdidos, quase chegou às listas. Doty é um poeta sério. Quando um livro com um 'desses' autores se aproxima das listas de best-sellers, há alguma coisa no ar.

As palavras que pareceriam selar esse momento de livro sobre animais - para mim, pelo menos - chegaram no início do mês, quando Cindy Spiegel, responsável pela editora Spiegel & Grau, explicou em The Times por que estava pagando mais de U$ 5 milhões a Sara Gruen por seus próximos dois livros. Spiegel não citou o talento literário de Gruen, que é bem modesto. Ela enfatizou apenas que Gruen, cujo novo livro será sobre macacos, 'tem uma ligação rara com animais'.

O que torna esses livros sobre animais, alguns literariamente deploráveis, tão atraentes para tantas pessoas? Por que estamos dispostos a desembolsar US$ 24,95 na Barnes & Noble local para ler sobre os bichinhos de estimação de um estranho? Talvez os leitores estejam à procura de um descanso das histórias angustiantes que vêm sendo empurradas em best-sellers recentes. Ishmael Beah, em A Long Way Gone (Muito Longe de Casa), fixa-se em ondas de assassinatos provocadas por drogas. Christopher Hitchens, em God Is not Great, espeta alfinetes em crentes de todos os matizes. On Chesil Beach (Na Praia), de Ian McEwan, explora a disfunção sexual humilhante. E Nora Ephron ainda está zangada com o seu pescoço. Para não falar do sortimento usual de romances de gênero sobre assassinos e terroristas e infidelidade e vida (sério?) em Hollywood.

Katz, um escritor do norte do Estado de Nova York, que publicou seis livros de não-ficção cada vez mais populares sobre cães desde 2001, acha que sabe exatamente o que está ocorrendo. 'Os americanos tornaram-se existencialmente solitários', diz ele. 'Estamos desligados da natureza e das partes animais de nós mesmos. Estamos vivendo em cidades e estamos em geral frustrados com nosso trabalho e insatisfeitos com política, tecnologia e religião, tudo isso que não conseguiu nos elevar como prometia. Então, estamos voltando aos animais em busca de companheirismo, amor e apoio emocional.'

As histórias sobre animais sempre estiverem entre nós. Alguns críticos apontam o romance Black Beauty (Beleza Negra, 1877), de Anna Sewell, uma narrativa autobiográfica relacionada a um cavalo bem criado, o primeiro 'verdadeiro' romance de animal. Mas Esopo empregou todo um curral em suas fábulas morais; os antigos gregos e egípcios os alinhavam em suas díspares mitologias; e a Bíblia não estaria em lugar nenhum em termos de sabor narrativo sem cordeiros, serpentes, jumentos e porcos.

Escrever sobre - ou da perspectiva de - animais deu a romancistas sérios uma oportunidade para embutir mensagens políticas e outras de forma palatável em suas narrativas. Essa mensagem, como em A Revolução dos Bichos , é simplesmente que os seres humanos são os verdadeiros animais. (A novela de Orwell também visou, é claro, ao totalitarismo soviético.) Em Life of Pi de Yann Martel, que lhe valeu o prêmio Booker, um rapaz de 16 anos e um tigre de Bengala literalmente partilham o mesmo barco. (Moral? 'Estamos todos juntos nisso.') Na história de The Bear (O Urso), de William Faulkner, nos falam soturnamente sobre 'aquela selva fatídica cujas bordas estavam sendo constantemente e doentiamente roídas pelos homens'. Aí aparece Cormac McCarthy. Num livro intitulado Animals in the Fiction of Cormac McCarthy (2006), um crítico chamado Wallis R. Sanborn III argumenta que na obra de McCarthy aparecem porcos com tanta freqüência antes de uma morte humana, que eles podem estar pactuados com o Diabo. Ou então McCarthy pode simplesmente gostar muito de bacon.

Muitos livros sobre animais são incômodos. Aí estão Jonathan Livingston Seagull (Fernão Capelo Gaivota, 1970) de Richard Bach, por exemplo, e Watership Down (1972), de Richard Adams, um livro que, como observou um crítico da National Review, 'tem quase a mesma pegada intelectual que 'Dumbo'. ' Em outros casos, grandes escritores escreveram livros não tão grandes sobre seus bichinhos de estimação. Aproxime-se, John Steinbeck. Em Travel with Charlie (Viagens com Charlie, edição portuguesa), você teve realmente de ganhar a estrada com um poodle?

Elizabeth Marshall Thomas, autora de The Hidden Life of Dogs (A Vida Oculta dos Cães) e outros livros sobre animais, diz que as pessoas têm compulsão a tentar escrever sobre bichos de estimação. 'Você tem um sentimento tão forte para com eles', diz ela, 'que dá um verdadeiro prazer ler sobre o que está se passando em suas cabeças e o que eles fazem instintivamente versus o que eles imaginam. Você pode falar com colegas donos de cães, imagino. Mas muitas pessoas que amam cães não os observam muito de perto ou pensam muito profundamente sobre eles.'

Mas também há, é claro, pessoas - e sou uma delas - que possuem e amam cães, mas não se interessam em ler histórias sobre eles. Exceto, talvez, as perversas, como Cujo, de Stephen King. Estamos esperando um cachorro literário que tenha a malícia amalucada do gato do cartunista B. Kliban, aquele que disse: 'Adoro comer esses ratinhos. Ratinhos que eu adoro comer. Arrancar com os dentes suas cabecinhas. Mordiscar seus minúsculos pezinhos.'

TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

   


    Links Patrocinados
  Estadao.com.br | O Estado de S.Paulo | Jornal da Tarde | Agência Estado | Radio Eldorado | Listas OESP
  Copyright © Grupo Estado. Todos os direitos reservados.