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O fim do medo de ler ensaios
Banalogias, de Francisco Bosco, inunda textos de avaliação crítica com a vivacidade e os temas próprios da crônica
Fabrício Carpinejar
João Bosco é pai de Francisco. Não somente Francisco Bosco é filho de João. O que Francisco Bosco realizou com Banalogias, da Coleção Filosófica da editora Objetiva, não é pouco. Não é uma obra de passagem. Ensina a olhar o ensaio de modo diferente.
O jovem de 30 anos tem a sabedoria de um ancião, mas não nega o frescor da linguagem, a flexão vocabular de seus dias. Carne recente, alma antiga. Ele não chegou a esse livro por acaso. Antes publicou a prosa poética Da Amizade (7 Letras, 68 págs., 2003), em que desmontava a relação ingênua entre leitor e autor. Eram flashes, aforismos, versos e comentários. Fotografava o ato de leitura, seus fetiches e paixões. 'O leitor se depara com uma antiga anotação sua à margem de um livro: é como ouvir a própria voz no gravador.'
Bosco não trafega pelas avenidas tradicionais dos gêneros, mas pelas suas paralelas, propondo confrontos e amálgamas. Ele combina técnicas literárias, o equivalente a um jogador de campo usando recursos do futebol de salão. É filósofo, pensador, poeta e cronista. Não é um de cada vez, sempre são todos ao mesmo tempo.
Da Amizade agia como uma webcam no livro, a capturar as movimentações dos olhos e a dispersão na busca pelo conhecimento. Feliz em seus instantâneos de descrição do volume sendo folheado. 'O leitor respira fundo./ Pára. Fecha o livro. Sai./Decidiu dar uma volta,/ como para ver se o mundo/ continua em seu lugar.'
Em Banalogias, a sensibilidade híbrida do autor arrisca mais um salto mortal. Agora não é o livro o tema, e sim o mundo. Será que o livro continua em seu lugar? Duvido.
Ele mudou a pauta do ensaio. Ensaio costuma ser algo ligado a temas universais, inoxidáveis, como o desespero, a dor, a fé. Ensaio costuma sofrer uma linguagem acadêmica, casmurra, com equações que espantam os iniciados. Ensaio costuma prescindir de um esforço de leitura mais do que de reflexão. Não é qualquer um que entra, tampouco é qualquer um que sai. Bosco alterou a conduta estilística: abriu o ensaio aos temas da crônica. Ao trivial. Ao mundano. Ao circunstancial e perecível.
Sua ousadia é explorar os modismos (e ultrapassar a tradicional aversão dos intelectuais) em busca da essência do comportamento. Por exemplo, uma de suas ponderações é a tatuagem, na contracorrente de dizer que é um gesto meramente estético. Encontra um gesto estético em sua inscrição. Bosco diz que a tatuagem produz uma segunda nudez; uma intimidade mais íntima que a pele, e que só se revela depois da revelação da pele. Não faz sentido? O ato de tatuar, convencionado como exibicionismo, é visto, dialeticamente, como resguardo e segredo.
'É o nu do nu. Esconder a tatuagem, escolher um espaço discreto no corpo, assume um sentido de economia da intimidade. Revelar a tatuagem é revelar o que, no corpo, esconde-se mais do que o próprio corpo, com o propósito, entretanto, de se revelar.'
Sua coleta seletiva atinge qualquer ambiente e pulveriza preconceitos. Suas teorias partem dos lugares mais insólitos. Define a magreza dos astros de rock, como Mick Jagger e Iggy Pop, num sinal de urgência e ardor. O relevo das costelas e a linha de abdome expressam o romantismo roqueiro. É a prova do exaurimento passional, do esgotamento inconseqüente. A vida se afirma quando é testada. Pode-se inchar com o rock (de álcool e drogas), não engordar.
A gafieira e o futebol resultam em surpreendentes conclusões. Na gafieira, defende a lógica do erro, sair do previsto é criar um novo passo. 'O erro é a origem do verdadeiro acerto.' No futebol, examina a afetividade brasileira de apelidar os atacantes (caracterizando a infância e a molecagem deles, próprias do drible) e deixar os nomes compostos aos zagueiros (um indício de respeito).
O autor não se intimida com insignificâncias. Toma todo o artigo com humor e leveza, procurando extrair um conselho ou um avesso nobre do seu conteúdo. É didático sem exercitar a superioridade do ponto de vista. Cria inclusive a filosofia da acne. Isso, da espinha. Ele não teme pensar por si, converte opiniões e impressões em verdades. Seu método é deter-se com propriedade em banalidades. Por isso, banalogias.
Quem penou na adolescência entenderá que a proliferação das acnes vem perigosamente da insistência em mexê-las?
'Espinhas são fofoqueiras trágicas: morrem por falta de assunto. Por isso cuidado com os cremes antiacne, os ácidos, as loções secantes; eles só funcionam se forem um meio para ajudar a esquecê-las. É preciso aplicar o remédio acompanhado de um único e breve pensamento: 'pronto' - e deixar que a indiferença opere sua química poderosa.'
O que é discutido no salão de beleza ou na mesa de bar assume um dilema épico de vida ou morte.
Não há nenhuma arenosidade no discurso, obstáculo, o desembaraço comunicativo permite entender cada fisgada do raciocínio, cada desdobramento. Texto limpo, transparente, coloquial. Ele não escreve simples o complicado, escreve simples o próprio simples, descomplica o que se complica na transição ao erudito. Melhor: escreve o simples de modo profundo. Ele provoca a voz a escrever mais do que o pensamento.
A mutação experimentada com Nelson Rodrigues, quando botou a crônica a florescer suas obsessões, é vivida em outra ordem em Banalogias, em que não ocorre a divisão entre o alto e o baixo, o culto e o popular, o superficial e o perene. Tudo é matéria de devoção nos 23 ensaios.
É uma inversão do método de Theodor Adorno (em especial Minima Moralia) e Walter Benjamin, precursores da escola de Frankfurt. Eles levaram a indústria de consumo para a filosofia, Bosco leva a filosofia para a indústria de consumo.
Inundou a prosa investigativa de temas que não correspondem a 'assuntos sérios', como a cor de Michael Jackson (ele não pretende ser negro, muito menos branco, mas transracial, desbancando completamente Walt Disney), a conduta dos playboys (que faziam sucesso na escola, mas são iguaizinhos àquela época), os chatos trágicos (o apaixonado que age errado, sabe que age errado e continua até a humilhação), as piores dedicatórias (escritas no calor da hora e da falta de inspiração).
Ele trata o menor com grandeza e seriedade cirúrgica. Bosco debate a fundo se um gol de falta é um golaço ou se um golaço depende da bola em movimento. Coisa de comentarista esportivo, ou de pensador do cotidiano. Leia a resposta na página 173 de Banalogias. O livro pode ser encontrado onde a coruja dorme.
Fabrício Carpinejar é poeta e jornalista, autor de Meu Filho, Minha Filha (Bertrand Brasil, 2007), entre outros
Banalogias, Francisco Bosco, Objetiva, 208 págs., R$ 29,90
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