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Os 80 anos do gênio chamado Kubrick
CCSP antecipa-se e lembra o artista genial que seria octogenário em julho
Luiz Carlos Merten
Stanley Kubrick morreu em 1999, aos 71 anos. Isso significa que, em 2008, ele estaria completando 80 anos. A data não vai passar em branco na cidade. Embora o dia exato seja 26 de julho, o Centro Cultural São Paulo antecipa-se às comemorações que, com certeza, vão se realizar em todo o mundo e inicia o ano mostrando justamente um ciclo dedicado aos 80 anos do grande Kubrick. Conta a lenda que o sonho do cineasta era realizar a obra definitiva de todos os gêneros do cinema. Kubrick não conseguiu realizá-lo pelo simples fato de que nunca fez um western - Marlon Brando despediu-o do set de A Face Oculta -, nem um musical nem um melodrama. Com exceção do último, alheio ao estilo cerebral do artista, é muito provável que até nos gêneros que não freqüentou ele pudesse ser bem-sucedido. Para não perder tempo com suposições, vamos logo ao que interessa - Kubrick fez obras-limite em gêneros tão distintos quanto o filme de guerra (Glória Feita de Sangue), o de terror (O Iluminado), a ficção científica (2001, Uma Odisséia no Espaço) e a sátira política (Dr. Fantástico).
Mesmo que ele não tivesse muito apreço por Spartacus, pelos problemas que teve com o ator e produtor Kirk Douglas, o filme virou uma referência no gênero épico e histórico. As cenas de batalhas - e de arena - permanecem imbatíveis, bastando comparar com o recente Gladiador, de Ridley Scott, que venceu o Oscar (e também trata, lá pelas tantas, do processo de preparação física de um lutador da arena). E o que dizer da suntuosidade audiovisual de Barry Lyndon? Ou das imagens perturbadoras do noir A Morte Passou por Perto, especialmente as cenas dos manequins, que um cinéfilo carrega pela vida toda?
Kubrick foi, como gostam de lembrar alguns críticos, o homem de cinema no seu estado mais puro. Se você fizer uma lista, não importa quão sucinta ela seja, dos diretores que fizeram avançar a linguagem ou que a trabalharam com rara força e intensidade, Kubrick terá de ser citado junto a Orson Welles, a Jean-Luc Godard e a Leni Riefenstahl, para só citar um grupo bem pequeno. Filho de um médico, ele foi atraído pela imagem primeiro como fotógrafo - o próprio pai se encarregou de estimular seu interesse - e aos 17 anos já trabalhava na revista Look. Aos 25, assinou seu primeiro longa, Fear and Desire, que possui cenas brilhantes - e é, em geral, uma alegoria contra a guerra travestida de drama existencial, sobre quatro pracinhas perdidos por trás das linhas inimigas, sem que o inimigo e o país sejam identificados -, mas se ressente da inexperiência.Todo Kubrick já está aí presente. A inovação, a inquietação, o pessimismo, mas o filme parece mais um rascunho feito por um cineasta talentoso do que a grande obra a que Kubrick talvez já aspirasse.
Naquela época, 1953, ele já resolvera a grande equação conceitual em sua cabeça. Segundo Kubrick, os diálogos, nos filmes, vêm da literatura, a interpretação, do teatro, e a imagem, da fotografia. O que transforma tudo isso em cinema é a montagem. É curioso como Kubrick, norte-americano de nascimento e vivendo numa sociedade capitalista, tenha chegado à mesma conclusão de dois russos geniais, que, nos primórdios da revolução comunista, também fizeram da montagem a pedra de toque do seu cinema. Para Sergei M. Eisenstein, filmar era organizar as imagens no inconsciente do público, o que só a montagem pode fazer. Vsevolod I. Pudovkin também acreditava no valor revolucionário da montagem, mas ele a trabalhava buscando a emoção. Em Kubrick, ela é cerebral, estabelecendo uma maneira de trabalhar a linguagem e os signos, o próprio tempo. Ele difere, de filme para filme, ora acelerado, ora lento, ajustado às necessidades dramáticas de cada história.
Essas histórias tratam de assassinatos, assaltos perfeitos, da luta de escravos pela liberdade, de um computador que enlouquece e assume o controle de uma nave, de um escritor que 'enguiça' como o computador e também se torna uma ameaça para a família, num hotel deserto, ou de soldados preparados para se transformar em máquinas de matar. Não importa a história nem a época, seja passado ou futuro. O tema de Kubrick é sempre a palavra. É a palavra que trai Hal, o supercomputador, assim como é o fracasso diante dela que desencadeia a fúria homicida do escritor Jack Nicholson, faz renascer a palavra enlouquecida do Dr. Fantástico (quando o sistema que une o Pentágono a seus bombardeiros entra em pane). A palavra enlouquecida prepara os homens para a morte no cinema de Kubrick - não é outro o sentido da retórica brutal de palavrões do sargento de Nascido para Matar.
Em todos os seus filmes, Kubrick, na verdade, está propondo, como disse aqui mesmo, no Caderno 2, o crítico José Onofre, uma glacial exposição do fim do mundo pela dissolução do único elo que organiza e une os homens - a palavra. Este é o tema dominante de sua grande obra, mas nos quase 50 anos decorridos entre o primeiro curta, Day of Fight, de 1951, e o último longa, De Olhos Bem Fechados, no próprio ano de sua morte - Kubrick morreu antes da estréia -, o cineasta se dedicou obsessivamente à sua arte, aprimorando continuamente a técnica para mostrar sua visão negativa, mas que para ele era realista, do homem.
Federico Fellini dizia que ele era um visionário e Luís Buñuel declarou que Laranja Mecânica, de 1971, era seu filme favorito por ser o único 'sobre o que o mundo moderno significa.' Kubrick fez 15 filmes, sendo 13 deles longas. Os dois primeiros, Fear and Desire e A Morte Passou por Perto, não contam, porque ele ainda estava se exercitando. Spartacus também não contava para ele, embora conte para seus admiradores, porque ele não pôde reescrever o roteiro que Dalton Trumbo havia desenvolvido para o diretor original, que Kubrick substituiu, Anthony Mann. O ciclo do CCSP apresenta nove dos 13 longas. A Morte Passou por Perto, O Grande Golpe, Glória Feita de Sangue, Spartacus, Dr. Fantástico, 2001, A Laranja Mecânica, Barry Lyndon e O Iluminado. Stanley Kubrick nunca recebeu o Oscar nem a Palma de Ouro, o Leão de Ouro. Em 1997, Nicole Kidman recebeu por ele um Leão de Ouro especial. Veneza impediu que um dos maiores gênios do cinema fosse, no limite, um dos diretores menos premiados do mundo.
Serviço
Kubrick, 80 anos. Centro Cultural São Paulo. Sala Lima Barreto (110 lug.). R. Vergueiro, 1000, tel. 3383-3402. Hoje, às 16 h, A Morte Passou por Perto; às 18 h, O Grande Golpe; às 20 h, Glória Feita de Sangue. Até o dia 13/1. Entrada franca.
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