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O autor contemporâneo em foco
Bosco Brasil tem suas peças editadas e encenadas em amplo evento no Centro Cultural São Paulo
Beth Néspoli
Peça que valeu a Bosco Brasil os prêmios Shell e APCA de autor em 2002, Novas Diretrizes em Tempos de Paz é um dos textos mais tocantes da dramaturgia brasileira contemporânea. Coloca frente a frente dois personagens num porto nacional em 1945: um ator polonês que, depois de ter vivenciado os horrores da guerra na Europa, deixou de acreditar na força do teatro e decidiu tornar-se agricultor no Brasil. E um fiscal da Alfândega, ex-torturador da polícia de Getúlio Vargas, que desconfia de suas mãos sem calos. Ao descobrir sua verdadeira profissão, o embrutecido fiscal lança-lhe um desafio. Ele terá dez minutos para fazer o fiscal chorar, do contrário voltará no mesmo cargueiro.
Por meio dessa fábula, aparentemente singela, Bosco cria um texto potente, uma ode ao teatro e ao poder do diálogo. Não por acaso, ele foi o autor escolhido para ser o primeiro brasileiro a integrar a coleção Palco sur Scène, lançada em parceria entre o Consulado da França e a Imprensa Oficial, cujo objetivo é publicar textos teatrais brasileiros em edições bilíngües. O primeiro volume da coleção foi lançado em 2005, com peças do autor francês Jean-Luc Lagarce. Amanhã, no Centro Cultural São Paulo, será lançado o volume, que traz as peças Novas Diretrizes em Tempos de Paz e Cheiro de Chuva, de Bosco Brasil.
O lançamento será feito em grande estilo, dentro de um amplo evento intitulado Novas Dramaturgias Brasileira e Francesa em Debate. A programação começa hoje com a estréia de uma montagem mineira, dirigida por Fernando Couto, de Novas Diretrizes. Amanhã será a vez de estrear Cheiro de Chuva, dirigida pelo próprio Bosco Brasil, com as atores Marcelo Escorel e Tânia Costa, atriz também responsável pela tradução francesa das peças de Bosco publicadas em Palco Sur Scène. Cheiro de Chuva põe em cena dois personagens, uma professora de dança e salão e seu aluno, uma forte atmosfera que os atrai, e muitos não-ditos. Os sentimentos que eles não revelam são expressos através do corpo, dos climas e, como recurso dramatúrgico, por suas imagens refletidas no espelho da sala de aula.
Mas o evento que tomará conta do Centro Cultural São Paulo vai permitir bem mais do que conhecer essas duas peças. Debates envolvendo especialistas brasileiros e franceses e ainda dramaturgos vão permitir aprofundar o conhecimento sobre a dramaturgia contemporânea de ambos os países. E, sobretudo, saber um pouco mais sobre autores como Philippe Minyana ou Michel Vinaver, franceses que vão integrar a coleção (veja programação completa nesta página). “Queremos envolver todas as etapas da criação em torno de uma obra própria ao teatro: o texto, sua tradução e publicação, leituras, montagens e encontros para a reflexão teatral”, diz Marinilda Bertolete Boulay, coordenadora da coleção Palco Sur Scène.
Por motivos óbvios, Bosco Brasil é o autor em destaque no evento que tem início hoje. Na sexta-feira, a reportagem do Estado foi encontrá-lo no hotel onde está hospedado para uma conversa sobre dramaturgia.
Você inicia a carreira de dramaturgo na década de 80, a chamada era dos encenadores, quando era muito comum a frase: não há mais autores. De que forma isso o afetou?
O discurso era esse, no mundo não há mais dramaturgia, e eu dizia que não era verdade. Hoje a gente está pagando royalties para a dramaturgia de alta qualidade feita fora do Brasil nas décadas de 80 e 90. Meu sangue espanhol me faz impertinente. Começou uma conversa quero saber a sua posição para ser contra. Tive brigas que hoje lembro rindo. Na época, fundei o Teatro de Câmara (na Praça Roosevelt) só para encenar dramaturgia brasileira e a editora Caliban, para publicar textos de autores contemporâneos. Mas havia uma necessidade que era coerente e bem-vinda de renovação cênica. Como todo movimento de transformação, veio com a síndrome do manifesto - tudo o que veio antes não vale. Se por um lado foi ruim porque não pude estabelecer um diálogo no palco com minha geração, por outro eu vi grandes textos encenados.
Por exemplo?
Nunca teria visto A Vida É Sonho (do espanhol Calderón de la Barca)e sou grato ao Gabriel (Villela) por ter feito; Leonce e Lena (do alemão George Büchner) do William Pereira, e tantos outros. Estou falando de amigos, colegas de geração e até de classe. Quando Antunes começou a trabalhar com Nelson Rodrigues, eu era aluno de Sábato Magaldi na ECA (onde ingressou em 1982) e uma de suas propostas de trabalho foi comparar as adaptações do Antunes com as textos originais. Antunes dizia que tirou a gordura naturalista de Nelson e eu fui verificar que gordura era essa. Também sob orientação de Sábato fiz um trabalho sobre um grupo de autores da geração 69: Leilah Assumpção, Consuelo de Castro e Antonio Bivar entre eles. E um outro no qual comparava duas peças em cartaz, Mão na Luva, de Vianinha, e De Braços Abertos, de Maria Adelaide Amaral. Aprendi demais fazendo isso - em plena era dos encenadores. Eu era obcecado por Strindberg e, de repente, descobri Zé Vicente. Pensei: caramba, Santidade é Strindberg aqui no Brasil. Hoje nem digo mais isso, Zé Vicente não precisa de comparação, é o Zé Vicente. Não foi uma morte. Foi uma passagem, uma preparação. Sofrida? Sim, mas hoje temos uma geração consistente de dramaturgos que não pára de crescer, com um espectro de temas amplo e instigante. Foi uma discussão boa para os dois lados, apurou argumentos, levou à busca de uma dramaturgia mais teatral.
Você consegue distinguir um traço comum às suas peças, uma marca em sua dramaturgia?
Sou muito permeável às influências. Desde Além da Imaginação até Strindberg, estou topando tudo. Minha paixão pela filosofia não tem nada de sistemática, pelo contrário, prefiro os filósofos assistemáticos. Sofro influências variadas e até conflitantes. Mas se tem uma coisa com a qual me deparo, em todas as minhas peças, é com a alteridade. Esse encontro com o outro sempre me fascinou. Claro que se pode dizer que o teatro como um todo é isso...
Sim, mas se tomarmos O Acidente como exemplo, sua abordagem é sobre duas pessoas que primeiro têm de se livrar de idéias preconcebidas para realmente chegar ao outro e não simplesmente estar ao lado, conversando.
Exatamente. Essa é desde sempre a perseguição. A variação está em quanto eu consegui me aproximar disso. Esse tipo de reflexão, as projeções sobre o outro, permeia minha busca.
Em Cheiro de Chuva isso volta a estar claramente presente e de novo pela via do afeto ou do encontro entre casais. Mas Novas Diretrizes é diferente, não? Ganha um viés político.
Há um momento de expansão em Novas Diretrizes que estou buscando desde o começo, que é o outro não só individual. Toscamente falando, seria a presença do público no privado, quando o público invade o privado, que é o que mais me interessa. Novas Diretrizes é a tentativa de buscar um tu maior, que é também político, que tem a ver com a comunidade. A potencialidade do dialógico perturba-me muito e pode ser o instrumento para romper uma armadilha na qual minha geração caiu.
O individualismo?
O niilismo. Crescemos imensamente em termos técnicos, dramatúrgicos, em modos de abordagem, de temática, mas para isso a gente precisou abraçar o niilismo. Só que deveria ser ponto de passagem e a gente está com dificuldade de ir adiante. É uma crítica que eu faço a mim mesmo. Acho que minha geração está incorrendo nisso. Quase como se o monstro criado pela pós-modernidade, termo que reluto em usar, tivesse nos engolido. Como ela é basicamente estética, nos engoliu, como se só pudéssemos fazer a crítica através dessa estética. Cheiro de Chuva, num certo sentido, é uma preparação para Novas Diretrizes porque já tem ali a discussão sobre o corpo. Opto pela dança de salão em que há o toque do corpo.
Num dado momento tudo ficou muito na cabeça, não?
Descobri que eu escrevo com o corpo. Parece óbvio, mas não é. Escrevo com o pâncreas, o fígado, o estômago. Se tem uma coisa da qual me orgulho é a de sempre deixar espaço aberto para a intuição na minha dramaturgia. O equilíbrio de que fala Nietzsche, entre o dionisíaco e o apolíneo, são polaridades atuais com as quais se pode trabalhar muito. O problema é que as pessoas confundem o dionisíaco só com festa. É pulsão de vida. É o prazer, mas também a dor. É tudo o que é vida, tudo o que é vivo; abarca a explosão de alegria e o sentimento trágico. São polaridades válidas, mas se entendidas no corpo, no âmbito do humano. E me parece que hoje, quando já se começa a falar no pós-humano, essa discussão é cada vez mais atual e é no teatro que se vai dar.
Acompanhe a Programação
HOJE
21 h - Estréia da montagem mineira de Novas Diretrizes em Tempos de Paz
QUINTA
21 h - Estréia montagem dirigida por Bosco Brasil de Cheiro de Chuva
22h30 - Lançamento da edição bilíngüe de duas peças de Bosco Brasil na Coleção Palco Sur Scène
DIA 15
Videopalestra do crítico francês Jean Pierre Thibaudat
DIA 16
Exibição do documentário A Secreta Arquitetura do Parágrafo: Encontro com Philipe Minyana (26 min) e do vídeo da adaptação da peça de Minyana, Inventários (48 min)
DIA 22
Newton Moreno e Rodrigo de Roure Leitura dramática de trechos das peças Agreste, de Moreno, e Últimos Dias de Gilda, de Roure
DIA 23
Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald falam sobre O Teatro de Michel Vinaver Leitura dramática da peça A Procura de Emprego, de Vinaver
DIA 29
Bosco Brasil e Alberto Guzik
A Influência do Movimento da Praça Roosevelt na Dramaturgia Nacional e seus Rumos Leitura Dramática de trecho da peça Cheiro de Chuva, de Bosco Brasil
DIA 30
Philipe Ariagno - Adido Cultural da França O Teatro Francês Contemporâneo Leitura Dramática de Apenas o Fim do Mundo, de Jean-Luc Lagarce
Perfil
PALCO: Bosco Brasil nasceu em Sorocaba, em 1960, e mudou-se para a capital de São Paulo aos 3 anos. Leitor voraz, começou a ler peças ainda jovem, mas a paixão pelo teatro foi despertada aos 13 anos, ao ver uma montagem de Antígona. Em 1977, entrou para o curso de teatro da atriz Berta Zemel. Na década de 80, forma-se em Teoria do Teatro - dramaturgia e crítica - pela Escola de Artes Cênicas da USP. Ainda na década de 80, escreve seriados radiofônicos. Sua primeira peça a repercutir é Jornal das Sombras, apresentada no Teatro Off, sala experimental criada por Celso Cury. Em 1994, ganha seus primeiros prêmios como autor, Shell e Molière, pela peça Budro, dirigida por Emilio de Biasi, com o ator Jairo Mattos no elenco, um de seus muitos parceiros artísticos. Logo depois funda o Teatro de Câmara, na Praça Roosevelt, onde ele próprio dirige seu texto Atos e Omissões. Em 1996, funda a Caliban Editorial e lança a coleção Teatro Brasileiro de Bolso, dedicada à dramaturgia contemporânea brasileira. As dificuldades de manutenção desses dois projetos o levam a aceitar o convite do amigo e escritor Alcides Nogueira. Assim, passa a escrever novelas, sem jamais abandonar o teatro. Entre suas peças mais recentes estão O Acidente, encenada com direção de outra parceira desde os tempos de juventude, Ariela Goldman, com Denise Weinberg e Genézio de Barros no elenco; Os Coveiros, com Jairo Mattos e Eric Novinski, dirigida por Hugo Possolo; e Cem Gramas de Dentes, dirigida por Georgette Fadel com o ator Jorge Vermelho. Há quatro anos Bosco Brasil mudou-se para o Rio, onde mora.
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