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A falta que faz uma perspectiva
Com a peça Graphic, a Cia. Vigor Mortis, de Curitiba, mistura a linguagem das histórias em quadrinhos, cinema e teatro
Livia Deodato
Becca já foi uma feliz desenhista de fanzines, mas hoje perde seu tempo em meio a gráficos financeiros. Raf é uma artista de rua e se dedica especialmente à arte feita com estêncil. Artie faz desenhos para enfadonhos manuais de instruções, enquanto cria uma saga para o seu personagem Homem-Sombra. O destino desses três personagens, interpretados por Carolina Fauquemont, Rafaella Marques e leandrodanielcolombo, respectivamente, vai se cruzar quando uma sonhada vaga, para trabalhar como desenhista profissional de quadrinhos, é aberta em uma grande editora. E aí vem à tona aquela sórdida faceta humana, capaz de tudo em benefício próprio.
A história, a princípio, divertida, mas que deve levar a um final trágico, estréia hoje no Centro Cultural São Paulo após temporada de sucesso em Curitiba, a cidade natal da companhia Vigor Mortis. Graphic, escrito e dirigido por Paulo Biscaia Filho, recebeu três troféus Gralha Azul (a maior premiação em artes cênicas do Paraná) em 2007 - de melhor espetáculo, direção e texto original -, e concorre ao Shell, do Rio, na categoria de melhor autor.
O novo texto traz algumas referências da peça anterior do grupo, Morgue Story - Sangue, Baiacu e Quadrinhos. No entanto, o autor e diretor avisa que a sua intenção não foi, necessariamente, realizar uma continuação da trama que se passa em um necrotério. 'A Ana Argento, personagem de Morgue Story, por exemplo, é citada por um dos personagens de Graphic. O universo é o mesmo, mas as peças são diferentes', conta Biscaia. A narrativa foi composta com a ajuda do elenco, além do cenógrafo Guilherme Sant'Ana, que juntos se propuseram a estudar a comunicação por meio dos quadrinhos. A base foi o livro Desvendando os Quadrinhos, de Scott McCloud. O elenco também participou de um workshop com o artista plástico DW, com o objetivo de criar um universo bem particular cheio de expressões gráficas, que será todo projetado num cenário feito um cubo giratório.
'Durante o processo, ouvi alguém da companhia dizer 'tenho problema com perspectiva', cujo significado é muito amplo. A frase acabou norteando a narrativa e foi atribuída ao personagem Artie, como sendo a sua maior dificuldade', diz o autor. Aliás, uma parte significativa do 'problema de perspectiva' dos atores foi resolvida. DW, logo na primeira aula do workshop, fez questão de assegurar que todo mundo pode desenhar. 'Ele afirmou que bastam dedicação e técnica para desenharmos. E, de fato, hoje posso até dizer que sei desenhar um pouquinho', diverte-se a atriz Rafaella Marques, que teve forte influência de Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi, previsto para estrear nas telonas no próximo mês.
Para delinearem seus personagens, os atores também fizeram laboratório com artistas de Curitiba. Juan Parada, Claudio Celestino e 'Olho', do coletivo Interlux Arte Livre, José Aguiar e o próprio DW não só foram fontes, como também deixaram suas marcas em Graphic. 'Até quem não tem afinidade com a linguagem 'quebrada' dos quadrinhos gosta muito do espetáculo', garante Rafaella.
Serviço
Graphic . Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, 3383-3402. Hoje a sáb., 21 h. Dom., 20 h. R$ 15. Até 10/2
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