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Julio Mesquita
(1891-1927)
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Sexta-feira, 11 janeiro de 2008   edições anteriores
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  O Masp depois do susto

Depois de ter recebido, às vésperas do Natal, como um “castigo”, o furto de dois preciosos quadros - o Retrato de Suzanne Bloch, de Pablo Picasso, e O Lavrador de Café, de Cândido Portinari (com valor estimado, em conjunto, de R$ 100 milhões) -, do Museu de Arte de São Paulo - Masp, o mais importante da América Latina, furto esse realizado com facilidade beirando o surrealismo (como dissemos em editorial anterior, sobre o assunto), a população de São Paulo recebe, neste início de ano, como um presente, a descoberta das obras furtadas, não danificadas, com apenas um arranhão no verso da moldura do quadro de Portinari, graças à rapidez e eficiência - além de muita sorte - da polícia paulista, que encontrou uma pista dos ladrões pela escuta telefônica que fazia de bando envolvido em assalto a carro-forte.

Entende-se que os indícios de fragilidade de proteção do valiosíssimo patrimônio cultural, que é o acervo instalado em um dos principais marcos arquitetônicos da cidade, somados a outras precariedades incompatíveis com o grau de importância do Masp, tenham despertado discussões as mais apaixonadas sobre a atual gestão do museu paulista - gerando manifestos pela internet, ataques e defesas acirradas de pontos de vista, inclusive sobre a oportunidade ou não de passar a instituição à administração do poder público - nisso também se levando em conta o momento, que se aproxima, de se negociar a continuidade (ou não) do comodato entre a instituição e a Prefeitura, tendo por objeto o imóvel da Avenida Paulista, de autoria da arquiteta Lina Bo Bardi.

É necessário, contudo, que essa discussão não se perca no acirramento entre grupos, em adjetivações acusatórias que resvalem para as idiossincrasias políticas - nem sempre providas da melhor argumentação técnica - e se enderece a questões mais substantivas, tais como, por exemplo, a precariedade de proteção dos bens culturais brasileiros - pertençam estes a instituições públicas ou privadas -, a forma de manutenção dessas instituições, pela via dos recursos públicos associados a parcerias privadas - como ocorre em tantos países do mundo desenvolvido -, e as estratégias mais modernas de gestão dos equipamentos indispensáveis ao aprimoramento cultural, artístico, estético e cognoscitivo de uma sociedade.

É bom lembrar que o Brasil já chegou ao destacável terceiro lugar - atrás apenas de Estados Unidos e França, países com acervos muito maiores do que os nossos - no ranking dos países com maior número de obras de arte furtadas, segundo dados da Interpol. Nos últimos dez anos, foram recuperadas somente 35 das 933 obras furtadas em território nacional, entre quadros, esculturas, documentos históricos, preciosidades bibliográficas e obras sacras. Observe-se, também, que, segundo a Interpol, o roubo de bens artísticos e históricos já é o terceiro delito mais rentável do mundo (depois do tráfico de armas e de drogas), sendo o Brasil o principal alvo dos ladrões da América Latina.

Sem dúvida cabe o surrado ditado “há males que vêm para bem” ao se ter notícia de que o Masp recebeu doação de moderníssimo sistema de segurança, com 48 câmeras com infravermelho, dezenas de sensores de pressão e demais equipamentos da LG Security System, no valor de R$ 1 milhão - em troca da divulgação da logomarca da empresa doadora em adesivos espalhados pelos corredores do museu. Segundo o presidente do Masp, Julio Neves, “o Louvre é um dos museus do mundo que têm as melhores condições de segurança e nós estamos colocando aqui equipamentos de última geração, tão bons ou melhores do que tudo aquilo que existe no mundo”. Bem, aí caberia o outro surrado ditado “antes tarde do que nunca”...

De qualquer forma, visões apaixonadas à parte, pode-se assegurar que, ao custo de um grande susto - e de um pequeno arranhão no avesso de uma moldura -, se instalou importantíssima discussão sobre um valioso acervo cultural do País e, mais do que isso, sobre a maneira de manter e proteger nossas riquezas culturais e artísticas. Como este é um país de sorte, nisso até os surrealistas ladrões do Masp ajudaram...

   


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