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Julio Mesquita
(1891-1927)
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Segunda-feira, 5 maio de 2008   edições anteriores
CADERNO 2
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  A América Latina na visão dos coletivos

Começa hoje mostra composta apenas por espetáculos criados em grupo

Beth Néspoli

É programação para ser celebrada pelos amantes de teatro. Na mesma semana vão estar na cidade a atriz portuguesa Maria do Céu Guerra, do grupo A Barraca, de Portugal, Santiago García do Teatro La Candelaria, da Colômbia, e Aristides Vargas, do equatoriano Malayerba. Todos trazem espetáculos para a 3ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo que começa hoje no Centro Cultural São Paulo e termina no domingo. Ao todo, serão 11 companhias teatrais de sete países, incluindo o Brasil, que igualmente conta com nomes de importância histórica como o diretor e dramaturgo João das Neves.

A programação mescla grupos de longa tradição, como é o caso dos três já citados, com outros menos conhecidos, mas cujas criações chamaram atenção pela qualidade. É o caso do Teatro en el Blanco, fundado em 2004, no Chile, cujo espetáculo Neva, ousada criação ambientada na Rússia de 1905, que tem entre seus personagens a viúva de Chekhov, Olga Kniper, chamou atenção de seus pares. Esse equilíbrio entre grupos sedimentados e emergentes se repete entre os brasileiros.

Atores de Laura, por exemplo, está entre as companhias já reconhecidas por trabalhos como o premiado Decote e traz à mostra sua mais recente criação, Ensaios de Mulheres. Por outro lado, ainda não alcançou reconhecimento nacional o cearense A Bagaceira, que apresentou Lesados no festival de São José do Rio Preto, e escolheu para a mostra O Realejo, uma história de amor cuja dramaturgia valoriza a rima e põe em cena uma figura quase fabular: o homem do realejo. Também pouco conhecido é o grupo gaúcho Oigalê, cujo espetáculo Miséria, Servidor de Dois Estancieiros é adaptação da clássica comédia de Goldoni, Arlequim, Servidor de Dois Amos.

Em comum, todas essas companhias buscam um teatro político na acepção maior do termo: reflexão crítica sobre a organização da vida na polis. Não por acaso, o debate de amanhã, às 17 horas, um dos previstos na programação, trata do tema Relação entre Estética e Política na Prática Teatral e une o brasileiro João das Neves e o colombiano Santiago García sob a mediação de Beatriz Rizk. 'Não é incomum vermos uma peça de temática política perder potência crítica por sua linguagem cênica ou, no sentido oposto, vermos um espetáculo cheio de avanços estéticos, diluído pela despolitização', observa Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, entidade realizadora da mostra com patrocínio da Petrobrás.

Sem dúvida, não poderia haver dupla mais apropriada para falar disso do que João das Neves e Santiago García. O primeiro, autor de O Último Carro, trouxe recentemente para São Paulo o vibrante musical Besouro Cordão de Ouro e agora participa com a direção de Maria Lira, criação dos atores do Teatro Ícaros do Vale, fundado em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. García, seu parceiro de debate, fundou há 42 anos o Teatro La Candelaria e traz para a abertura da mostra, hoje à noite, o espetáculo El Paso, definido por críticos como metáfora da Colômbia pela forma como aborda a violência contemporânea. O texto foi criado em sala de ensaio pelos 13 atores do elenco, sob direção de García que também atua e divide o palco com outros integrantes da primeira formação, como a atriz Patricia Ariza.

'Pedimos aos participantes que eles próprios escolhessem a criação de seu repertório de que mais gostam, as mais significativas e não necessariamente a mais recente', explica o curador Alexandre Roit. 'Todos os grupos chegam no primeiro dia e ficam até o último, e todos fazem demonstração de trabalho no dia seguinte à sua apresentação, aberta ao público', diz Roit. 'Esse é um aspecto muito importante para ampliar o aproveitamento dessa concentração de artistas. Na maioria dos festivais, a gente chega às vésperas das apresentações e tem de sair assim que elas terminam. Na mostra, a troca de experiências toma todos os dias e é compartilhada com o público.'

É a chance de entrar em contato com dramaturgos da envergadura do argentino Aristides Vargas, um dos mais encenados da América Latina. Tons de realismo fantástico impregnam a dramaturgia desse autor. Um homem que vaga sem rumo depois de ter se perdido numa passeata na década de 70 (Pluma) ou uma menina morta aos 8 anos que não entende seus pais que trocaram a bandeira da justiça social pelo cartão de crédito (La Casa de Rigoberta)são exemplos de peças de Vargas já vistas em festivais brasileiros. Mas ele preferiu trazer, desta vez, uma criação recente do Malayerba, Bicicleta Leroux.

Em plena mobilização por leis para o teatro, hoje será a vez de gestores de diferentes países, entre eles Raul Branbilla, presidente do Instituto Nacional de Teatro da Argentina, Gilsela Cerdeira, vice-presidente do Conselho de Artes Cênicas de Cuba, e Celso Frateschi, presidente da Funarte, encontrarem-se no CCSP para uma conversa, aberta ao público, sobre Políticas Públicas para o Teatro em Países Latino-Americanos. Confira a programação completa e saiba mais sobre o história de cada um dos grupos e também sobre o espetáculo que apresentam na mostra pelo site www.cooperativadeteatro.com.br.

OISTAT - A Organizacão Internacional de Cenógrafos, Técnicos e Arquitetos Teatrais no Brasil faz evento paralelo às 10h30no CCSP: mesa de debates com o tema 'Transnacionalidade: causas e efeitos em intercâmbios culturais', para estimular a reflexão sobre as relações de trabalho entre os países e as influências de outras culturas.

Programação

SEGUNDA

17 h - Encontro de Gestores - Políticas Públicas para o Teatro
20 h - El Paso, Teatro La Candelaria, Colômbia

TERÇA

17 h - Debate: Relação entre Estética e Política na Prática Teatral
21 h -Ensaios de Mulheres, Atores de Laura, Rio

QUARTA

12 h - Miséria, Servidor de Dois Estancieiros, Oigalé, Rio Grande do Sul
18 h - Debate: A Relação Dialética entre Forma e Conteúdo
21 h - Errores de lo Subjuntivo, Teatro La Rendija, México

QUINTA

18 h - Neva, Teatro en el Blanco, Chile
21 h - O Realejo, Grupo Bagaceira, Ceará

SEXTA

18 h - Antígona, Reduzida e Ampliada, Cia. Senhas de Teatro, Paraná
22 h - Maria Lira, Ícaros do Vale, Minas Gerais (Pátio do Colégio)

DIA 10

18 h - Amarillos Hijos, Teatro del Bardo, Argentina
21 h - Felizmente Há Luar!, Barraca, Portugal

DIA 11

20 h - Bicicleta Leroux, Teatro Malayerba, Equador

CENTRO CULTURAL SÃO PAULO. Rua Vergueiro, 1.000, tel. 3383-3402

Toda a programação é grátis. Retirar senha com 1 hora de antecedência no CCSP. Só Maria Lira será apresentada no Pátio do Colégio

Serviço

3.ª Mostra Latino-Americana de Teatro de Grupo. Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000, 3383-3402. 2ª e dom., 20h; 3.ª, 21h; 4.ª, 12h; 5.ª a sáb., 18h. Grátis. Até 11/5

   


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