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No forró, deixar-se levar
Ignácio de Loyola Brandão
A caipirosca vem num copo de bom tamanho, quase um balde. Para forrar o estômago, sugiro o queijo de coalho na brasa. Ou carne-seca em tiras. Junto, água mineral para equilibrar a vodca, que é generosa.. Às quartas e sextas-feiras, chegue pelas 8 da noite, que é quando Ary Feitosa e Silvinha, personal dancers, estão dando aulas de forró. Se acaso sentir-se um pouco intimidado, como eu, torne-se primeiro observador. Perceberá que na pista há gente corajosa que entra com a cara e a coragem, confunde-se, às vezes pensa que é bolero, outras que é chachachá (os jovens sabem o que é isso?), mistura-se um pouco de rumba e mambo. Nada disso, forró é... é forró! O que importa é que ousam.
No entanto, depois de uma hora, aquelas pessoas, não tendo a mínima (a palavra deveria ser a minha) covardia, já estão se saindo razoavelmente bem. Nas próximas aulas, verá que elas progrediram. Dentro de algum tempo, estarão se exibindo até com passos e volteios requintados. Porque o forró penetra por todos os poros, orienta os músculos, relaxa a mente, é uma viagem alucinógena. Primeira lição: deixar o desconfiômetro de lado, abandonar qualquer autocrítica, entregar-se.
Apesar de perto, a duas quadras de minha casa, descobri o Andrade recentemente. Um dia, estava em João Pessoa, no Tábua de Carne, comendo macia carne-de-sol com mandioca que derretia e elogiei: “Ah, se achasse uma coisa assim em São Paulo!” Os amigos paraibanos retrucaram: “Tem, vá ao Andrade!” Fui e descobri mais do que a carne-de-sol. É uma instituição. O Andrade existe desde o início de 1981 e fica no limite entre os Jardins e Pinheiros, na esquina das Ruas Artur de Azevedo com a Henrique Schaumann. A porta é pequena, quase escondida. Lá dentro é um mundo, vasto mundo, sem afetações, paredes recobertas por diplomas com as estrelas conferidas pelos guias de culinária e revistas de turismo. Não há nada excepcional na decoração, nenhuma grife, nenhum design ou artifício de decorador para criar um ambiente. Aqui e ali, alguns elementos nordestinos. No entanto, conheço poucas casas com tanta atmosfera e aconchego.
É uma espécie de galpão, com um puxado para esse lado, outro para o outro. No entanto, é entrar e gostar, envolvido pela simplicidade que se torna sofisticada. No Andrade (o nome vem do seu proprietário Manoel Leite de Andrade) é o jeito de receber, o não convencionalismo, a não exibição de quem frequenta. Ali não estão fotógrafos das revistas de famosos, não há a ansiedade do aparecer. Há descontração e a vontade pura de se divertir, dançar. Mas famosos vão lá, como seres comuns.
Fotos invadem espaços com gente conhecida e com anônimos, amigos da casa, frequentadores há décadas. Pois logo à minha frente não havia uma figura mais que conhecida nos meios literários? Quando ele se virou, vi que era o editor e livreiro Cortez, habitué de 20 anos, que se solta na pista com uma descontração juvenil. Ali fui uma vez, fui duas, fui três, virei freguês. É como se fosse um clube privê, ou a sala de visitas de uma casa, onde todos se conhecem, se cumprimentam, se abraçam, tratam os garçons pelos nomes.
Poucos lugares são tão paulistanos pelo cosmopolitismo, tão brasileiros na comida, bebida e música, tão nordestinos na hospitalidade e amabilidade. O forró contagia, empurra para a pista. Mesmo eu me animei. Pensar que fui célebre pela perna dura, ausência de ritmo e nenhum remelexo. Era aquele que nas festinhas Leve Seu Long Play, dos anos 50, ficava de lado olhando e me imaginando Fred Astaire ou Gene Kelly, mas pregado ao chão. Sonhava dançar e permanecia paralisado. No Andrade, Silvinha veio me buscar e me puxou para a pista, eu pensando em como não pisar no pé dela, preocupado em imitar, seguir o timing, e ela ria e dizia: “Relaxe, solte-se, entregue-se, siga a música, não seja perseguido por ela, ela é que te leva.”
Agora, eu olhava, mas de dentro da pista, para admirar aquele senhor de 84 anos, que tirava todas as mulheres para dançar, e saracoteava sem parar, agilíssimo. Se ele consegue, por que não eu? Porque no Andrade você pode ir a outra mesa e convidar uma pessoa para dançar, assim como outros vêm à sua, é uma confraria, uma fraternidade para todas as idades.
Esta semana tive a primeira aula. Sou duro na queda, mas persistirei. Comprarei um sapato para deslizar melhor pelo salão, ouvirei Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Dominguinhos e todos os clássicos tocados no Andrade pelo Trio Piauí ou por Zé da Loura, Tony e Lino, para já chegar com o clima dentro de mim. Minha filha de 25 anos estará com o grupo de amigos de sua idade. Porque o forró é ??intemporal. Descobri tarde, mas descobri. No dia em que Ary e Silvia (e, claro, Márcia minha mulher) me garantirem que não vou envergonhar a raça, colocarei o terno branco, aquele mesmo com que tomei posse na Academia Paulista de Letras, e entrarei triunfalmente no restaurante. Quero aparecer. Sonhar é preciso!
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