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Julio Mesquita
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Domingo, 8 outubro de 2006   edições anteriores
FEMININO
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  Ética começa pelo berço

Dar bons exemplos de conduta é a melhor forma de passar valores éticos para os filhos

Vera Fiori

Passados 30 anos do infeliz slogan de uma marca de cigarros e a lei de Gerson continua mais atual do que nunca. Para quem não se recorda, no comercial, Gerson, tricampeão mundial de futebol, dizia a tal frase: “você gosta de levar vantagem em tudo, certo?” Errado. Mas, em tempos de sanguessugas, fica difícil falar de ética para os filhos, especialmente se no ambiente familiar a “esperteza” for encorajada ou vista mais como atributo do que como falta de caráter.

“Os ditados populares traduzem bem o assunto, como ‘cada um por si, Deus por todos’ ou ‘quem parte e reparte, mas não fica com a melhor parte, ou é bobo ou não tem arte’”, comenta o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella, co-autor do livro Nos Labirintos da Moral (editora Papirus, R$ 26) com o psicólogo Yves de La Taille. Os adultos que tenham cuidado com o que dizem e fazem se quiserem passar valores positivos para as crianças. Explosões no trânsito com frases do tipo “se eu pudesse, eu matava” não são entendidas metaforicamente pelas crianças.

Outro mau exemplo é quando os pais caem na armadilha da ética excludente, dizendo aos filhos coisas do tipo “se não estudar, vai ser empregado doméstico na vida ou te coloco numa escola pública.” Cair em contradição é outra cilada. “Pai e mãe falam para o filho não mentir e, quando toca o telefone, o pai manda o filho dizer que está no banho.” Mais: as crianças crescem ouvindo sobre os malefícios do álcool, mas, vira e mexe, os pais estão com um copo na mão sob o pretexto de que bebem para relaxar. “Rechear a conversa com positividade ética é o caminho”, conclui Cortella.

Na esfera da educação, Yves de La Taille, docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), lembra que no lugar da antiga disciplina de Educação Moral e Cívica ficou um vazio. “Mas seria impossível, hoje, imaginá-la como uma matéria. Quem teria legitimidade perante a sociedade e o aluno para ser professor de Educação Moral? A escola deve trabalhar isso, porém, com uma abordagem transversal. Entre a moral - deveres e regras -, e a ética, acho que a escola deve ser um espaço de reflexão sobre a vida que se deseja viver. ”

LITERATURA - No caso dos pequenos, as histórias infantis são um recurso valioso para transmitir valores, como observa Leda Dantas, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), psicóloga, mestre em Educação e doutora em Filosofia da Educação:

- As crianças adoram ouvir as mesmas histórias repetidas vezes. Para elas, não importa apenas conhecer a história. Querem e precisam reviver a fantasia, e esta é fundamental para imaginar um mundo com outras possibilidades. Este é o campo da ética, o campo do dever e do ser. É preciso estar preparado para ir além do ser, do existente, e pensar outras formas de relacionar-se consigo mesmo, com os outros, com o ambiente, em sintonia com o valor máximo que é o respeito à vida.

No final dos anos 90, Leda desenvolveu com crianças de 7 a 12 anos da rede estadual o projeto Literatura Infantil e Ética: uma Experiência na Escola Pública (disponível na internet), com a proposta de debater a contribuição da literatura na educação moral da criança.

A literatura infantil surgiu no século 17 com Fenélon (1651-1715), justamente com a função de educar moralmente as crianças. As histórias tinham uma estrutura maniqueísta, a fim de demarcar claramente o bem a ser aprendido e o mal a ser desprezado. “Os textos mais ricos, no entanto, são aqueles que apresentam personagens complexos - não notadamente bons ou maus -, em situações que demandam escolhas e reflexões sobre as conseqüências da mesma.” Foram apresentados aos alunos fábulas, contos de fadas e contos contemporâneos, que tratavam da solidariedade (O Cavalo e o Burro), inveja (O Sabiá e o Urubu), respeito à diferença (O Corcunda de Notre Dame), justiça (João e o Pé-de-Feijão), entre outros.

A educadora conclui que o desenvolvimento da capacidade crítica e reflexiva das crianças foi o que mais a surpreendeu. Na discussão de O Flautista Mágico, por exemplo, um menino de 10 anos disse que não era só o prefeito da história que não era bom, o da sua cidade também não era, pois não cuidava do seu bairro.”

CONTADOR DE HISTÓRIAS - Não apenas educadores, mas também os pais usam a literatura como um canal condutor de valores éticos. Arnaldo de Sousa, pai de Fernanda, de 10 anos, e Sofia, de 6, alunas da escola Santo Inácio, sempre gostou de ler e queria incentivar esse hábito nas filhas. Começou a contar histórias da Mônica para elas e, quando o repertório se esgotou, passou a inventar personagens. A fama de contador de histórias correu entre as crianças e a escola convidou-o para falar na classe da filha caçula. A repercussão foi tão boa que surgiu a idéia de criar um blog (www.historiasdopapai.blog-se.com.br ).

- O objetivo do blog é criar historinhas infantis originais para pais sem vocação. Prefiro escrever histórias com a proposta de ensinar algo. A história da estréia, O Sapo e o Grilo, fala da amizade e do respeito às diferenças.

Fernanda, a filha mais velha, diz que aprendeu muitas coisas com as histórias contadas pelo pai, como a condenação ao racismo, o respeito a pessoas diferentes, entre outras situações que ocorrem na vida real.

Hélio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu - ONG sem fins lucrativos com propostas educativas que visam a mobilizar a sociedade para o consumo consciente -, lembra que, muitas vezes, as noções de ética e cidadania são passadas de filhos para pais. Segundo ele, a criança, quando orientada, mobiliza a família inteira.

- Dei uma palestra para os filhos dos funcionários de uma empresa e, dias depois, recebi a ligação de um pai, dizendo que o seu filho havia lhe pedido que comprasse alguns baldes. Segundo o menino, como o chuveiro da casa demorava para esquentar, a água fria era desperdiçada, daí a idéia de recolher a água para reaproveitamento.

POLÍTICA - Com tiragem inicial de 100 mil exemplares - que serão distribuídos gratuitamente para escolas e interessados -, a Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB) lançou uma cartilha infantil com a proposta de chamar a atenção das crianças para a importância do voto político. O personagem Menino Maluquinho, do cartunista Ziraldo, leva aos pequenos noções básicas do sistema eleitoral brasileiro, por meio da linguagem lúdica dos quadrinhos. A entidade acredita que, estimulando a curiosidade infantil, vai dar início a uma discussão sobre o assunto, seja na escola ou em casa. A cartilha faz parte da Operação Eleições Limpas, lançada este ano pela AMB, visando à mobilização da sociedade na luta pela ética eleitoral. Leia mais no site: www.amb.com.br.

   


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