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Julio Mesquita
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  Comer Como Jesus Manda

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A Igreja estimulava o consumo de peixe nos dias de jejum e abstinência de carne, que não eram poucos. Iam de 145 a 165 ao ano, segundo o espanhol L. Jacinto García
Os europeus têm dois tipos de cordeiro: o de leite, ainda não desmamado, abatido com 8 a 10 kg; e o que chamam apenas de cordeiro e o abatem com 8 a 10 semanas, com 14 kg

Dias Lopes

O bacalhau é o alimento emblemático dos católicos durante a semana santa, sobretudo na sexta-feira da Paixão. Nesse dia sagrado, eles se abstém de carne em respeito ao sacrifício de Jesus que, segundo sua fé milenar, derramou o sangue e ofereceu o corpo para nos salvar. Só o peixe não quebra a penitência. A tradição do bacalhau surgiu nos séculos 15 e 16. Capturado nas águas frias do Pólo Norte, revelou-se um ingrediente perfeito. Salgado e seco, suporta o transporte para os lugares mais distantes, dispensa a refrigeração sem o risco de estragar. Mergulhado em água, mantém as qualidades nutritivas, adquire sabor agradável e dá origem a preparações deliciosas. O sociólogo paulista Gabriel Bolaffi, no livro A Saga da Comida (Editora Record, Rio de Janeiro, 2000), cita outra razão para a assimilação pela dieta cristã. 'Além disso, era peixe abundante', diz. 'Custava pouco e se tornava acessível aos pobres'. Agora, o bacalhau está sob ameaça de extinção, causada pela pesca indiscriminada, e seu preço se encontra nas alturas. Mesmo assim, mantém o favoritismo entre os católicos, a ponto de conquistar um lugar de honra na mesa festiva da Páscoa.

Antigamente, a Igreja Católica estimulava o consumo de peixe apenas nos dias de jejum e abstinência de carne, que não eram poucos. Iam de 145 a 165 ao ano, segundo os cálculos do médico, nutricionista e ensaista espanhol L. Jacinto García, no livro Comer Como Deus Manda (Editorial Notícias, Lisboa, 2000), cujo título inspirou o deste texto. Portanto, os católicos comiam carne apenas nos carca de 200 a 220 dias livres de vigília. Na Páscoa, saboreavam cordeiro, alimento igualmente evocativo do sacrifício de Jesus. São João Batista chamou Cristo de 'Cordeiro de Deus, aquele que tira os pecados do mundo'. Na última ceia, ocorrida na véspera de sua morte, em torno da Páscoa judaica, o fundador do cristianismo dividiu com os discípulos alimentos simbólicos: ervas amargas, pão ázimo e carne de cordeiro. No Apocalipse, último livro do Novo Testamento, o título de cordeiro é dado 28 vezes a Jesus. Os seguidores de Cristo são chamados de cordeiros. São Pedro, o primeiro papa, é seu pastor. Infelizmente, os católicos estão abandonando a tradição de saborear cordeiro na Páscoa. No passado, a família inteira fazia isso comunitariamente, sentada em volta de uma mesa, reforçando os vínculos de afeto e festejando o dom da vida. 'Desde há uns anos a esta parte, no entanto, e da mesma maneira como tem acontecido com outros costumes do passado, esta celebração culinário-religiosa entrou em declínio e, hoje em dia, já quase não tem eco', lamenta García.

Além disso, era uma cerimônia de espírito ecumênico. Promovia a aliança simbólica dos católicos com os judeus, que lhes haviam transmitido a tradição. O povo hebreu até hoje tem em sua mesa de Páscoa uma perna de cordeiro assada, para lembrar o animal oferecido como sacrifício na época do Templo de Salomão, em Jerusalém. Também aproximava os católicos dos muçulmanos. O cordeiro continua a ser protagonista central das grandes festas de seu calendário litúrgico. Uma delas comemora a entrada de Maomé em Meca, após a exaustiva travessia do deserto. Obviamente, referimo-nos até aqui ao 'filhote' de carneiro, não ao animal adulto. A Bíblia prescreve como ele deve ser: 'Sem qualquer mancha ou defeito, macho e com menos de um ano' (Êxodo, 12,5). Os europeus têm dois tipos de cordeiro. Um é o de leite, ainda não desmamado, abatido com 8 a 10 quilos; o outro chamam apenas de cordeiro e o abatem com 8 a 10 semanas, pesando 14 quilos. No Brasil, somos menos exigentes. Chamamos de cordeiro o ovino abatido com até 32 semanas e pesando cerca de 25 quilos.

Pardoxalmente, a carne ovina e dos mamíferos em geral foi objeto de desconfiança nos primeiros séculos da nossa era. García relembra que, pouco depois de abolir a rigidez das normas dietéticas judaicas, o cristianismo estabeleceu abstinências, jejuns e preconceitos. A carne se converteu no principal alimento afetado. Vários textos religiosos a consideraram um alimento maldito pelo suposto poder de atiçar a luxúria. O Concílio de Saleucia e Ctesifonte, duas cidades às margens do Tigre, na Mesopotâmia, convocado em 410 pela Igreja Católica do Oriente, sentenciou: o monge que come carne 'é tão desprezível como aquele que comete adultério'. Entretanto, a severidade acabou abrandada, principalmente pelas bulas pontifícias. Em 1064, o papa Alexandre II promulgou um desses documentos. A chamada Bula da Cruzada concedia uma série privilégios aos fiéis que dessem 'esmolas' para financiar a expedição destinada a libertar os Santos Lugares 'das mãos dos infiéis'. Os benefícios mais significativos, conforme García, eram justamente 'iludir as proibições do jejum e abstinência de carne'. Não por acaso, hoje os países mais carnívoros do mundo são cristãos.

(SERVIÇO)jadiaslopes@terra.com.br

   


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